domingo, 30 de novembro de 2008

Instâncias

Não, não me tomem por bruto. É que venho aprendendo das despedidas sem levantar poeiras na estrada. O que é a partida, senão uma nudez estranha? Se despe de e se despede. Quando alguém sai de nossas vidas, nos leva a roupa do conforto conhecido, mesmo que esse consolo seja caminhar calçado no mangue das ilusões, entretanto, com um sapato de dois números a menos. Um confortável incômodo ou um cômodo desconfortável? O alívio chegará com o tempo. Tempo justo. E os pés, livres do estrangulamento da lingua de couro, áspera, reconhecerão a delícia do reencontro da matéria prima com a matéria original e de destino indubitável para tudo que anda e desanda.

E bruto não sou porque não compactuo mais com o abrupto. Vou paulatino e a cada estaca contada na beira do desatino, paro, me viro e dou acenos. Estou indo! Até um dia... Até que a gente se perca de vista. Não tomo carona nas aeronaves que ultrapassam a barreira do entendimento aos néscios ou aos apaixonados, que também são néscios por escolha própria.

Venho há muito dando indícios, uso de toda linguagem para me fazer claro. Ela não sabe ler. Não é bem uma iletrada. Apenas não sabe ler e cultua oralidades sa(n)gradas lá no recanto venenoso dos homens verdes. Os rituais se sucedem no sítio “disse-me-disse”, fundado em oposição ao “não me deixes” de Raquel de Queiroz em composição com o "Ne Me Quitte Pas" de Jacques Brel.

Há coisa de cinco anos dei o primeiro sinal: cumprimentei a tal moça na feira de inutilidades, úteis exclusivamente às vaidades estampadas nas araras vermelhas, onde tinha uma moça que sorria com sérias pretensões de aliciar desavisados futuros pretendentes, mas que na verdade estavam preteridos de causalidades, contudo abastecidos de dólares obtidos culposamente, crime dolor à humanidade. Quando avistei seus olhos ocultos, sob a lupa escura de marca, vi que nada via a moça de raça em moda, travestida de deleidades cósmicas, típicas dessas eras astrais, onde todo planeta importa sentido, excluindo-se este que nada importa.

Disse olá e olha lá se fui compreendido. Presumo que não. Ela nada disse e continuou sorrindo e mirando as minhas calças. Que volume procuras? Escondi a mão no bolso ou seria o contrário? Estou duro, moça. Essa era a senha para entrar na sua taberna. Daí pra frente ela me deu as costas. Meus Deus! Estava mesmo disposta a tudo. Uma dança encenamos no meio do paço e nossos passos se atroplevam de desejos. Mas pisei no seu calo. O primeiro sinal – o rítmo lento do adeus em fim de festa.

O resto é estória banal de todo casal que se depara com a fatalidade da perda. Não carecem pormenores de certos detalhes relevantes, por maiores que sejam. O beijo roubado e por tal deve ser devolvido ao proprietário que pagou caro pelo mesmo. O sono perdido, sem remédio nem nada que o reponha, com os dias contados. O que se conta se sabe finito. Caso contrário, não se contava. Somente os amantes da mortes celebram aniversários. A eternidade não faz uso de calendários. As juras conjuram tão somente a contemplação do impermeável. Os dias passados? Passados os dias. Tudo relegado nas cartas queimadas. Não foi culpa de ninguém. Quem sabe do poeta. O poeta já havia matado a árvore bem antes. A moça, mais ávida, vociferou pelo seu desaparecimento. Vivia, ou pensava que vivia, de sombra a água. Fresca que era ela. Então o poeta, pensando, pensando, e inutilmente pensando estar criando, extirpava a naturalidade. Poeta tem dessas, emprestar azuis e belezas que alucinam. Ou seja, tira a luz da espontaneidade, ainda que que feia e dura e opaca. Nesse caso, mea culpa. O sol está quadrado na janela da cúpula.

Vou dobrando a curva. Só lhe vejo a barra do vestido flamulando. Não sei se de felicidade. À frente tem um pasto largo e o gado se ajunta junto a cerca de arame farpado. Olhares tristes me dizem que viver tão vasto pode ser uma merda. Mas é tão bom esse cheiro de roçado.

Aluísio Martins

3 comentários:

Necka Ayala = N.A. disse...

AMEI teu blog.
Prazer! Necka.

Lia disse...

"Olhos tristes me dizem que viver tão vasto pode ser uma m...."
Pode crer, Maninho.
Instâncias...
Você arrasa!
Beijo

Simone Lima disse...

genial... lembrei de Rilke que pergunta ao poeta: “morreria, se lhe fosse vedado escrever? (...) escreves “como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde (...)"
bjo
simone