segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

LONGE

"As horas que nos separam,
Com seus infindáveis minutos,
Povoam minha insanidade de imorais apelos.
E o canto de sereia
Que é a sua risada
Ecoa pelos salões das lembranças
Zunindo os cristais dos beijos que agora não te dou.
Consolo é deitar ao lado do vulto de perfume
Deixado na tarde soturna de amor e sonhos...
Quero acalmar seus dedos em agonia
Afogar sua insegurança com minhas asas de liberdade
Para alçarmos vôos de plenitude desse amor
Que nasce na penumbra da dúvida..."

“mas as sereias têm uma arma muito mais terrível que seu canto: o seu silêncio. – Franz Kafka”

MASA -

domingo, 28 de dezembro de 2008

Quero construir um abrigo
mas não por isso brigo
amar é tão infinito
Sinto cheiro de sorriso
Fingido loucura de tímido
De tal maneira que não grito
Sou seu homem, decerto
Monumento inconcluído
Sem ela viro um deserto
Morro do que não sinto
A poesia me chama mais perto
Com ela pareço bonito
Deixemos tanto asfalto concretro
Diz chega ao que está nos partindo
Corpos celestes no espectro
As nuvens vão sempre despindo
Agora que tudo é incerto
É certo que estamos sorrindo
(aluisio martins)

ELA



veio passando
não consegui desviar
parecia a maresia
a flor do luar
e assim fica
vem
volta
olha
ri,
esmaga
dentes
tudo...
tudo...
SEM VOCE NAO TEM GRACA!

sábado, 27 de dezembro de 2008

Temo tua dominação, Ó liberdade
de ser como um nó no peito
sempre pedindo de nós mais

Tudo é surpreendente e demais para mim
temática, essa mesa é pensada
e também os anéis que a cobrem
com a luz que pela janela entra

Fascínio e um jeito só dela
as fatoriais e a cadeira
onde sento e de onde vejo

Todos esses bulímicos prazeres
são menos e mais com a hora
e tangem por certo os medos.

Petro.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

RASTRO


ELA PASSA EMBAIXO DA MINHA JANE

LADEIXA SEU RASTRO

DEIXA MINHA JANELA SEM PAISAGEM

PORQUE VAI EMBORA

PELA RUA ESCURA

PELO MEIO DA RUA ESCURA

PELA SOMBRA MOLHADA DA RUA ESCURA

SEM OLHAR PRA CIMA

SEM DIZER ADEUS...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


MADONNA MIA


E VOCÊ LÁ

BANHO DE CHUVA

BEIJO SUADO, SEM LUAR

E NÓS DOIS LÁ

BANHO DE LUA

BEIJO MOLHADO, SEM SUAR

E EU LÁ...

EM VOCÊ...

POR VOCÊ...

COM VOCÊ...

sábado, 13 de dezembro de 2008

YESTERDAY

Yesterday...
Yesterday nunca volta. Nunca!
Como parece estar bem ali, tão pertinho, quase que tocado, a gente pensa que ele vai dar uma colher de chá.. Talvez uma outra chance...
Que nada!Nunca houve esse retorno.
E tanto que os físicos estudaram...Tadinhos...
Por mais que se espere, por mais que se sonhe, por mais que se me arrependa...
"Quem espera nunca alcança."
Um cavalo em galope só se tem uma chance de agarrá-lo e se você não o faz, meu filho...Já era! Talvez ele nunca passe de novo . E se passar, você teve sorte dobrada ,então corra atrás!E assim que acontece...Caso contrário, nada de arrependimentos ou de "ses"!
Fica apenas um grande e doído yesterday.Aquele prá Cinderela alguma encontrar senão. E muito menos príncipe, que no caso, dessa estorinha que vou contar, não tem nada de encantado. É bem real, muito real, até demais da conta!
A moça aprendera fora de época o que só servira em um longínquo passado careta de avós...
E, olhe, que o tal príncipe bem que fez o papel dele. Mesmo pouco à vontade, sendo ele um tanto moderno para o gosto e sonho dela, perdeu muito do seu tempo. Sabe-se lá porque...O amor era forte , parece, e isso contou à favor.
Só que quem espera também cansa.
Ela assustou-se com os "arroubos" do príncipe muito bonito mas nada encantado e embora gostasse bastante de sentir-se amada e desejada retraiu-se. Várias vezes. Embora fosse louquinha por ele...Parece que a coisa era mútua , né? Ela, entretanto precisava de mais tempo e ele achava que já tinha dado demais.
E, é claro, desistiu.Caiu fora. Foi embora.
Ela, depois de tanto pranto resolveu "viver", viajar, conhecer outros cantos...Arrumou pretextos. Namorou outros príncipes, muitos sapos mas nunca esqueceu"aquele"príncipe...Brincou, vamos dizer assim, muito superficialmente sem a menor vontade de esquecê-lo. Guardando-se para aquele "grande amor" !
E querendo voltar... Sempre.Esperando. E voltando. Ele, por sua vez, nada dizia quando seus olhares por acaso encontravam-se.
Dessa vez, ela desistiu.Aos quase trinta, jogou fora da maneira menos romântica possível o símbolo de uma prisão do que poderia- ou não-ter sido um grande amor. E tornou-se uma mulher. Quando já o era ou poderia ter sido há muito tempo. Ele sentiu. Ela também.
O tempo perdido. E à toa.
Ah...Só rindo mesmo...Debochando!Mas a estória fica bem longe de um americanizado final feliz. É claro,óbvio, e inevitável.
Um acidente de carro...
Ela casou pouco tempo depois. Quase disse "não" na hora não esperada. Como era bem próprio dela desde então. Revoltou-se, afinal. Com ninguém. Com ela mesma. Mas convenientemente como lhe foi transmitido cumpriu seu papel.
Se é feliz, até hoje não se sabe.Importa?A vida continua. Sempre . E não como num conto de fadas.Somos, de fato, um punhado de "poeira de estrelas"- perdidos nesse mínimo universo.(?)
Existimos???
O ontem é também hoje, só que amanhã. E não é propaganda de bebida não...
Ou Ontem é o ontem ontem mesmo...Parece que apenas o presente não existe.
Por que nos preocupamos tanto com ele? Ele é tão rápido! Já foi? Um ponto eu já coloquei...De interrogação. Agora final.
Ficam como lembranças, com alguma dor porque o tempo( e não o príncipe, que já morreu há muito tempo) embora "adormeça as paixões" ,de quando em quando elas não obedecem e ressuscitam - como Nana canta tão bem em "Resposta ao Tempo" de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos.
Só que agora , "dears", deu vontade de cantar baixinho uma outra grande canção...
"Yesterday, all my troubles
seems so far away.
Now it looks as though
they're here to stay.
Oh, I believe in yesterday.
( ... )
Yesterday, love was such
an easy game to play.
Now I need a place to
hide away.
Oh, I believe in yesterday...
"Fico por aqui! Beijos!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

DEVIR


Fora acometido do mal de antever. Uma chaga que chega antecipada ao acontecido. De forma que não se dava mais ao trabalho de vivências. Surgiu-lhe um pequeno cachorro à porta: tinha nos olhos uma carta de adoção convicente. Como se apiedar do que se vai morto no dia 15 de agosto de 2010, à noite, após três dias imóvel e sangrando, com grunidos que mais pareciam miados de um gato que voz canídea? Ao que muitos poderiam julgar como dádiva, a luz de tudo que passa ou virá, ele se insatisfazia, se não tomava sustos, menos recebia surpresas. Lá vinha a moça, linda que parecia, bem podia nutrir sentimentos e astrologias. Mas para que? Seria tão somente o comprimento do cumprimento e resignações excludentes, até que só sobre o amor ao que não foi. Projeção sobre pano que se desgasta à olhos vistos. Velocidade não-tempo ultrapassa a barreira do silêncio. Daí que deteriora o diálogo antes mesmo da carne putrefata de senão. Esse é o preço do olho gordo de definhar simplicidade. Tudo o que estava lhe jazia há tempos. Dar, então, sem saber no que vai dar. Porém sabia e doia saber-se iluminado em meio ao breu, cheio de si. Orgulho besta por pequeno saber. Vaidade lhe prova que a estima está mais longe. Quanto mais brio, mais por um fio, o entendimento. Não, disso estava curado além do necessário. Tanto além que o remédio virou veneno e morrerá por um excesso de saúde que não nos cabe. E mesmo que coubesse, ninguém, cá embaixo do sol, merece. Bem sabe do dia da sua partida e o diagnóstico-causa: falta e não unicamente de ar. Rarefeito sopro de apagar velas em celebração dos presentes e ausentes. Queria mesmo que algo lhe aturdisse. Num determinado dia, planejou contrair um vírus dado como fatal, passou dias sem alimento, obrigou-se de proibido e foi ter com ele, o vírus. Nada. Sua imunidade estava aumentada por desistências ou nenhuma comoção-empolgação que causa desritmia e febre dos pulsos. A moléstia já tinha vacina guardada na aorta. Suspeitou que sua idade fôra mal contada. Sentia a juventude de quem ultrapassou três séculos. Quando se vai por um século, no primeiro, ainda se está frágil por desconhecimentos e esforço vão de ciências. Que pesadelo a imortalidade. Elas vão e voltam e quanto mais se vão, mais se voltam estupidificadas. Nada aprendem? Como reter uma imagem quando esta é sua imimiga mor? Dom de mau gosto. Melhor se capaz fosse de congelamentos. Bem podia ter um poder de Medusa evoluída. Pare! Todavia não seja estático porque é estúpido tudo que se imobiliza ou brinca de inerte como um boneco de neve, por exemplo. Desistiu também das fotografias e das letras. Ambas eram carcomidas pelas traças e os traços irreconhecíveis que restavam desenhavam monstruosidades. Olha, essa é minha amada ou será um onitorrinco? No verso deveria estar escrito “sorrindo na sacada”, mas lia-se, agora, “so...indo...n...ada”. Típico de initeligências. Ainda chamam de enigmas. Mistérios são coisas de quem vive de mortes alheias - um peixe endurecido na pedra, um feixe que rasgou o céu. Animais ou anjos sem ânimas, tanto faz. Tudo se ex-vai. Iria e não foi miléssimo do que planejava. Estar acordado era a pior forma de se dormir porque mais enfadonho, mais visível. Não fosse o tamanho escrúpulo estaria rico vendendo prognósticos infalíveis. Do mesmo modo, levaria todos ao suicídio. Quem quer saber? Melhor que creiam na eternidade do momento. Ele se compraz em espreitar os casais em juras. Felizes para “sempre” . Amém. (Aluísio Martins)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Torna o Trôpego

Como foi de se saber
Cair sem perceber
Salvar, ser e fazer
Ninguém sabe aprender

Montado em seu escrever
Alísio como tem de ser
Tosado e um tarde correr
Enamorado do entardecer

Timbrado, tristonho viver
Tudo termina em parecer
A agonia mente sem ver

Do seu agoniado o emudecer
Buscando em algo morrer
Seu fim e seu bel prazer.

Petro.


Guardei o cheiro da pele-gozo no lençol de meses e meses não dormia outra. E fosse outra já não seria. Tinha que ser “Ela” e não “Outra” que significa uma substuição ou reserva na escala do sentimento. Isso não faria. Ela ainda não houve em sua totalidade. Somente fragmentos daquela respingou no lençol. Esta sim, imortal, posto que ninguém a chama. A ardência é uma aderência sem endereço fixo. Em quem reside? Muitas preferem ser desejadas a amadas, sem saberem que se trata de uma coisa só, dependendo da ordem dos sentidos para não desordenar o espírito metafísico. A prova comprova milênios obscurecidos sob um véu que não vela, um tolo desejo de permanência. Hoje é dia implacável de lavanderia. A lavanda de nossos olores exprimidos no pano que deitamos será misturada ao sabão barato que antes foi assepsia de ratos e-laborados. O cheiro não se perde, mas seguinte alquimia o deixará tão longe da memória. Dois em mim deflagram: um apela que não se faça tamanho crime. Detenham-no, o cheiro da mulher em mim que desejo. Sim, a mulher em mim que fui tão bem. A combinação de fruição diversa e uníssona – o nirvana. Meu outro, julgando ser mais prático, ordena: leve e lave bem até que não reste resquício. E prático que é, sabe bem que por ora mais exala o perfume de suas madrugadas de ânsia. Uma morte com data marcada para nascer. O perfume da Outra é o elixir Dela. Tônico que tomo porque quero mais dessa parada de seguir andando. Estou quase pronto. Não hesite em se inquilinar, nova e, de preferência, antiga que se chega sem termos, nem recatos. O lençol que ponho é vermelho com estampas de espanto. Um centímetro de cetim para aguçar o apelo da pele. Seja-me suave a que vem, mas que não atrase combustão, con-fundindo-me sagradamente com o profano encontro da nudez com o artifício. Não ouse fingir espamos de cinemas decadentes. Mas decaia nos orgasmos dos amantes de cinemas inenarráveis - o amor empresta a coragem de não ser limpo. Hoje é dia de lanvanderia. O que queremos alvejar? (Aluísio Martins)

sábado, 6 de dezembro de 2008

Avulto


Sombria a ilação quando sóbria em demasia e, de sobra, sem valia. Que me prove a lucidez ser mais nítida que o rompante dos loucos que proferem lógicas que não ousariam se loucos não fossem, lógico. Tênue e mínima essa casa onde habita o sentimento que o aperto é um inquilino gritante, mas no fundo, conforme, na forma que se sente e é justo que sinta repetidamente como um pós-sentimento de visita inconveniente. Chegou na hora exata. Bem vinda é a tua presença en-san-decida na ladeira morro abaixo. Nada posso te oferecer além do prazer de não ter o que servir. Tome assento no desconforto do homem que deseja. Quando quiser partir que se vá sem demora nem cerimônias. Nenhuma fiz de recebimentos. Não será por isso que direi adeus, até logo e que não seja breve. Vá e volte a esse monumento que não se edifica de pesares, mas de pensar em não pensar. Meditação precisa de ruído, um rádio narrando a marcação do ferro em brasa, o brasão do divino. Mantras ao alcance: um dílúvio errando de alvo, lançado por Bush ou o diabo que carregue; uma célula truncada no tronco pungente que se doa a toda a gente para te antecipar; um homem santo que, num surto de pânico, fundou uma igreja e se farta de cordeiros na ceia, na cela, no céu que invetou para não que tu não caiba, muito possivelmente, ainda os devotos fazem votos de um dízimo, uma pequena quantia de manutenção da fornalha. Seja lá o que queira e seja como bem ou mal quiser. De eixos sei dos trilhos que desgostam de tudo vivo e gostam muito de quem se desgosta da vida entre uma estação e outra. Para tanto fora feito o direito, para entortar. Que direito tenho de não te querer? Sou digno com a pena riscando desprezo de dejavu porque te amo mito na caverna, grifada na palidez da parede da alma. Estou ciente que te criei e crí ser o ser que criei. É tão incrível a realidade quanto fantasmas que desacredito existirem. Nunca me puxaram o pé, tenho essa prova. E olha que não foram poucos os que prometeram me molestar. Só sei de ti, nome de mulher e mulher graças que é, decerto que sim. Teu nome coagula o vento da correria e me estaciona no dia que virá. Teu nome é saudade, mas não da que houve, mas da que vela noites enormes no meu corpo quando me ponho ereto e deitado com outras imaginadas, viciadas de dormências e sono de meio-dia, de meia vida. Barriga cheia não é remédio. Quando muito, alívio, mas pesa tanto. O segredo é deixar algum espaço no ôco para a sobrevivência e manutenção da necessária e sábia insaciabilidade. Desminto o estômago com enganos granulados, contados à conta-gotas. O mesmo faço com todo orgão, sou tântrico por excelência. Claro que me excedo. De outra maneira não me saberia o que não sou. Assim sendo, talvez que você me surja magicamente. Careço ultimamente de toda ilusão que não ludibrie, mas apenas confirme futilmente o erro para que eu firme acordo pacífico com mentiras e verdades – uma coisa só, acredita? (Aluísio Martins)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Título? Posso "passar"???

Recebi um convite para ser colaboradora.
Colaboradora...Pensei em que poderia colaborar. Não sou escritora. Mas até que tenho minha vida, minha alma, minhas experiência para dividir...Mas fico em dúvida, servirão? Estarão vocês na mesma viagem?
Meu nome é medo. Distonia. Insatisfação e anseios. De tudo. De explicações, de aceitações, de /ou fé. Algo que acalme o ser. Que preenha os espaços vazios.
Andei procurando alento no existencialismo. Não é a minha... Definitivamente!
Para o existencialista não cabe arrependimentos e eu vivo deles, mesmo que não adiante nada. Os "ses" me perseguem. Caso eu tivesse feito isso, se não tivesese feito aquilo...E por ai vai.
A fé, agora que os "Meus" estão perto de partir, também não me serve. Nem Deus, muito menos ele. O sentido tem que vir de dentro para fora. Dizem que Deus está em todas as coisas, inclusive in- side...Inside de quê, de quem? De mim é que não está ou está brincando de esconde -esconde há muito tempo e olha, já perdeu a graça. Como eu tento não fazer mal a ninguém se ele existir talvez me dê um desconto quando eu lá chegar, sabe ele onde.
Agora , de um lado procuro explicações nas estrelas, no big bang, nas explicaçóes nada fáceis para uma leiga do Stephen Hawking. Leio e releio cada página algum par de vezes. "O Universo numa casca de Noz".Indico. Interessante mas não anda me respondendo tanto quanto pensava.
Do outro lado da cabeçeira Lao T-se. Gosto mais, muito mais. Principalmente da ação pela inação. nada de preguiça, lógico mas já que estamos mesmo à mercê, né não?
Na verdadde, encontrar semelhantes e que é o barato. Mesmo orkutando, mesmo virtualmente levando-se em conta que atrás do virtual há um real onde batem mil corações. Há que se ser criteriosa, entretanto. É isso aí.
Manda ver nos comentários, falou? Estou curiosa e adoro uma dinâmica, uma "discussãozinha" salutar, digamos assim...
Grande abraço a todos que por aqui se detiverem.


Lia

domingo, 30 de novembro de 2008

Instâncias

Não, não me tomem por bruto. É que venho aprendendo das despedidas sem levantar poeiras na estrada. O que é a partida, senão uma nudez estranha? Se despe de e se despede. Quando alguém sai de nossas vidas, nos leva a roupa do conforto conhecido, mesmo que esse consolo seja caminhar calçado no mangue das ilusões, entretanto, com um sapato de dois números a menos. Um confortável incômodo ou um cômodo desconfortável? O alívio chegará com o tempo. Tempo justo. E os pés, livres do estrangulamento da lingua de couro, áspera, reconhecerão a delícia do reencontro da matéria prima com a matéria original e de destino indubitável para tudo que anda e desanda.

E bruto não sou porque não compactuo mais com o abrupto. Vou paulatino e a cada estaca contada na beira do desatino, paro, me viro e dou acenos. Estou indo! Até um dia... Até que a gente se perca de vista. Não tomo carona nas aeronaves que ultrapassam a barreira do entendimento aos néscios ou aos apaixonados, que também são néscios por escolha própria.

Venho há muito dando indícios, uso de toda linguagem para me fazer claro. Ela não sabe ler. Não é bem uma iletrada. Apenas não sabe ler e cultua oralidades sa(n)gradas lá no recanto venenoso dos homens verdes. Os rituais se sucedem no sítio “disse-me-disse”, fundado em oposição ao “não me deixes” de Raquel de Queiroz em composição com o "Ne Me Quitte Pas" de Jacques Brel.

Há coisa de cinco anos dei o primeiro sinal: cumprimentei a tal moça na feira de inutilidades, úteis exclusivamente às vaidades estampadas nas araras vermelhas, onde tinha uma moça que sorria com sérias pretensões de aliciar desavisados futuros pretendentes, mas que na verdade estavam preteridos de causalidades, contudo abastecidos de dólares obtidos culposamente, crime dolor à humanidade. Quando avistei seus olhos ocultos, sob a lupa escura de marca, vi que nada via a moça de raça em moda, travestida de deleidades cósmicas, típicas dessas eras astrais, onde todo planeta importa sentido, excluindo-se este que nada importa.

Disse olá e olha lá se fui compreendido. Presumo que não. Ela nada disse e continuou sorrindo e mirando as minhas calças. Que volume procuras? Escondi a mão no bolso ou seria o contrário? Estou duro, moça. Essa era a senha para entrar na sua taberna. Daí pra frente ela me deu as costas. Meus Deus! Estava mesmo disposta a tudo. Uma dança encenamos no meio do paço e nossos passos se atroplevam de desejos. Mas pisei no seu calo. O primeiro sinal – o rítmo lento do adeus em fim de festa.

O resto é estória banal de todo casal que se depara com a fatalidade da perda. Não carecem pormenores de certos detalhes relevantes, por maiores que sejam. O beijo roubado e por tal deve ser devolvido ao proprietário que pagou caro pelo mesmo. O sono perdido, sem remédio nem nada que o reponha, com os dias contados. O que se conta se sabe finito. Caso contrário, não se contava. Somente os amantes da mortes celebram aniversários. A eternidade não faz uso de calendários. As juras conjuram tão somente a contemplação do impermeável. Os dias passados? Passados os dias. Tudo relegado nas cartas queimadas. Não foi culpa de ninguém. Quem sabe do poeta. O poeta já havia matado a árvore bem antes. A moça, mais ávida, vociferou pelo seu desaparecimento. Vivia, ou pensava que vivia, de sombra a água. Fresca que era ela. Então o poeta, pensando, pensando, e inutilmente pensando estar criando, extirpava a naturalidade. Poeta tem dessas, emprestar azuis e belezas que alucinam. Ou seja, tira a luz da espontaneidade, ainda que que feia e dura e opaca. Nesse caso, mea culpa. O sol está quadrado na janela da cúpula.

Vou dobrando a curva. Só lhe vejo a barra do vestido flamulando. Não sei se de felicidade. À frente tem um pasto largo e o gado se ajunta junto a cerca de arame farpado. Olhares tristes me dizem que viver tão vasto pode ser uma merda. Mas é tão bom esse cheiro de roçado.

Aluísio Martins

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A língua do olho
Acopla nos versos
A cópula dos mesmos
Corpus-lentos artistas
Hedonistas mal-nutridos
Obssesivo desejo
Amar-gozo
(Aluísio Martins)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Inverno2

fotografia de Joseph Barrak / AFP
#
É quase um susto contido no gesto
Bem-vindo, porém
É quase um surto prescrito no sorriso
Benigno, como convém
É quase o muro intransponível do tempo
Berlim contesta, e Amém
#
Anete Antunes

Sãos são os pecadores

Ah, mulher
Por que insiste em adiar a consumação à beira do rio?
Não me diga que cria ser manso o deitar-se no leito frio
Não te disse?
Não me diga
Se viver é tal tormenta, de que tal sorte seria a morte boa e lenta?
Tantos por tantas vezes se repetiram
É um fogo...
E outra maneira não há de se viver por amor
E outra receita não há de se padecer do mesmo ardor
Felizmente
Não digo feliz de contente
Mas enfim, o gôzo fremente
Desprovido da estúpida obrigação de pedir perdão pelo pecado da carne
Cometido com muito gosto, ainda que tarde
De onde tiraste a idéia louca que ao acometido pela loucura da paixão cabem penitências que não a própria fruição do prazer carnal?
O amante infernal
Rubro e devasso e asceta
Mas, acima de tudo, é um anjo o poeta
Deus lhe preserva louros e o louva pela tamanha bravura de se nomear sua imagem e semelhança
Quanta coragem abrubta
Para plantar flores em pedra bruta
Pouco importa se pouco se colhe do muito que se intenta
E se flores não colhe, se inventa
O poeta é artista da desdita
Tudo é proveito, colheita bendita
Daquela pobre pedra de areia dura faz escultura
Formas lindas de deleite
Ou seja,
Dá matéria à alma desnuda
Para desnudar também a sua
Em matéria de amor, o poeta é vida
Porque cria perfeito o que abjeto evita
Objeto antes sem vida - pó
Daí que Deus e poeta são um só.
Aluísio Martins

domingo, 23 de novembro de 2008

É medo!!!

Eu tinha feito um texto eXplanativo sobre meus amores. Ele criou asas própias, por mim absolutamente indesejaveis e escafedeu-se no Cosmos. Estou muito implicante com esse "X" do texto, era melhor mesmo que fosse "TETO" e que me protegesse dos eXtras. Reitero meu amor, desta feita com mais cuidado.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

desditos

A vida é boa
É imoral e engorda

Papa na língua é pecado
Quem tem crina não é gago

Valente só mente medo
Solidão é cangaço

Todo destino é capim
Antes disso
Estrume que boi não come.
Aluísio Martins

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Nova Era: Um Mundo de Maldade

Era de se esperar que quando pessoas comuns subissem em árvores para pregar o que nunca foi Palavra, que algo insubstancial estivesse para acontecer. Aqueles que o negam não passam de cegos hipócritas; há que se levar em conta, no entanto, os verdadeiros cegos, estes que adquiriram ou mesmo nasceram com a doença; pois são incapazes de enxergar os clarões repentinos que clareiam a mais escura das noites, a noite de uma era. Enquanto muitos esperam a vinda do Salvador, do Messias, O Cristo, há um buraco no tempo a dizer não passar tudo isso de mera superstição. Os que vivem o dia a dia, o noite a noite; estes tem a capacidade de enxergar no tempo esse enorme espaço vazio, assemelhando-se a um buraco negro, sugando para dentro de si, não matéria -- ou a luz -- mas as esperanças de que uma vida melhor virá. Há ainda os que têm isso na consciência, mas que preferem deitar as costas numa espreguiçadeira e simplesmente não fazer nada a respeito, mas destes não é a culpa, afinal, há sempre o direito à liberdade de não fazer nada.

Petro.

domingo, 16 de novembro de 2008

saudade líquida

E diluido fico e tanto nesses caminhos molhados e escorregadios que não sei quem é mais menino - ele, o filho real ou eu, o fantasioso pai. As minhas meninas estão escondidas, as duas brincam. Uma está pendurada na árvore e balança as pernas que não param de crescer. Alcançarão algum chão? A outra vive no mar, longe e pequena que é, para avistá-la, preciso de toda minha fé. Mas vejo-a feliz, ouvindo nas conchas o meu desejo de amá-la.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Olhar Intimista

Eu gosto de escrever como quem conta uma história
Do longo padecer, crio o que me aponta a prosódia
Sem mesmo querer, professor eu me torno
Fazendo entender que o todo é um forno
De onde assar é obedecer o fogo e o baixo assado
que faz fumaça e o beber, um com outro em um caldo
se bebo enquanto se faz o comer, já se torna diferente
é bom como escrever no papael uma dor pungente
e assim acabo sem saber se gostei ou escrevi
muito pouco importa, pois o mais difícil esqueci
E, se não é esquecer a arte de levar a vida
para breve em breve aprendar, com cada ferida
sem também ser dileto viver a cousa esquecida.

Petro.

domingo, 9 de novembro de 2008

Incondicionágua

Se ...

Ter sido tua água

suor contido

deserta minh'alma

é agonia

Ter sido tua lágrima

torneira antiga

secreta enxurrada

é alegria

Ter sido tua chuva

tormenta distante

hoje sábio e fugaz

(creio)

é intervalo

Ter sido tua gota

eternizado instante

entre a origem

e o ralo

*

Anete Antunes

Indico:
http://anjobaldio.blogspot.com/

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Qualquer Coisa, me Chame!!!

Esse é um grito, um apelo, um confessionário de alguém que leu muito Nietzsche e comeu poucas mulheres (não que uma cousa implique em outra)
Estou gostando de ser apresentado assim a novos blogs, de onde vejo com estupor falarem de temas para mim tão descomplicados -- mulher, para os Nietzschianos, ou é falsa ou é deusa --, e, acho muito bonito tudo isso. Apenas peço-me que escrevam mais e publiquem mais, e interem minha pessoa dentro de tudo isso.
A iniciativa do Aluísio é nobre, e, precisamos -- com certeza -- de mais e mais poetas como ele; não importa o que digam os acadêmicos; Aluísio, você é grande!, eu é que vejo tudo isso com muito entusiasmo mas pouca empolgação.
E carrego esse descarrego com muita raiva, e, como o Mestre Cartola, "Levantei as mãos ao céu, blasfamei"

Retirem-me do incalco dos "grandes" poetas de pequenos textos e vamos nos elevar ao sincero despreparo da criança freudiana que é o adulto dentro de nós, esse ser que chora cada vez que depara-se com uma cousa com a qual não se identifica!

Abraços a todos!

Petro!!!

sábado, 1 de novembro de 2008

Se a Vida é, I love You

Você é a pedra que falta
para, suave e incalta
lavar meu jovem espírito
cansado de ser só escrito.

Você foi a carta de baralho
olhada e pensada de talho
simples e não cogitada
que derrubou minha jogada

E, você será meu amor
pois, se a vida é detentor
I love you em inglês e
te amo essa e outra vez.

Petro

sábado, 25 de outubro de 2008

Encontro de Palavras

Ontem sonhei com a palavra amor
E acordei pensando em computador
Telefonei para a palavra orgulho
E recebi um sinal mudo
Sai de casa com a palavra raiva
E dei de cara com uma antiga namorada

Conversamos com a palavra lembrança
Como se fossemos duas crianças
Almoçamos com a palavra saudade
Contando histórias de nossa mocidade
Me despedi da palavra desejo
Com um "tchau", um abraço e um beijo

Peguei o novo número de telefone
Do termo não me decepcione
E logo passei a me encontrar
Com o termo se reencontrar
Mas no nosso encontro seguinte
Encontrei a palavra rinite

Esperei qualquer palavra saudável
Até que ela me ligou, quando estava estável
E então marcamos de sair
Prum canto que precisa se bem-vestir
Sendo que disso eu não sabia
E fui para lá de chinelo, bermuda e agonia

Rindo, procuramos um outro canto
Um que tenha as palavras simples e encanto
Achamos numa esquina do Benfica
Um barzim de palavras paz e calmaria
Fomos atendidos por um garçon simpático
De palavras careca, alegre e extremamente pálido

Sei que agora estou muito feliz
Com a palavra... como é mesmo que se diz?
Não tou conseguindo identificar
Vou atrás da palavra pesquisar,
Começando pelo computador...
Lembrei! Acordei com a palavra amor!

C. A. Ribeiro Neto



* Pois bem, se me convidaram, eu aceito o convite!
www.caribeironeto.blogspot.com

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Boca Boa de Beijar

Levanta tua saia
dentro, sua laia
é de uma tralha
sou o que trabalha

Já no fim do dia
à tarde, poesia
clarifica e é sadia
como sua companhia

Outro beijo roubado
da sua boca muito boa
desse seu jeito enjoado

soletro no céu classudo
da tua boca, um beijo sexuado
que sobe e deixa-me mudo.

PETRO.

Fortaleza, 29/09/08

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Loira-burra


Alimenta-se de pequenas fatias prateadas e recheios ondulados e brilhantes, reflexivas. Engorda com dietéticas maldades. Rondou, com seus olhinhos semicerrados, o que circunvizinhava, e notou novidade inquilinando seu bairro. Desceu do carro uma garota, recatada, misteriosa, sentiu medo. Além da trigal cabeleira cascateando em laminas o par de olhos verdes, a boca miscigenada, carnuda e mulata, um tom ocre enviava sinais de sol e sal. Olhos de boa alma, gênio calmo. Morena logo convocou os habitantes para travar estratégias e tratou de encenar, cinicamente, sorrisos e rebolados. Perfilou Jonas, Marquinhos e Duda exigindo posturas e juras de amor em público. Beijos na boca, irrefutáveis. Pronto, essa loirinha metida a besta já deve saber quem manda por aqui. Ai dela se ousar se meter comigo. As amigas bajulavam e diziam-lhe que não haveria ninguém mais linda que ela e, aos poucos, sua ira foi dando lugar à gargalhada escandalosa, assustadora. Recepcionaram a menina em uníssono: loira-burra, loira-burra, loira-burra. A morena nunca perdia o rebolado, ao contrário, dominava-o excelentemente, acentuava-o quando rivais ou pretendentes por perto. Ainda que não pretendessem de fato, mero detalhe, todos a desejavam. Inclusive o Tio Alberto, solteirão convicto, irmão de sua mãe, quando lhe visitava, a seduzia. Tio olha os meus peitinhos, pega na minha bundinha, já sei beijar de língua, quer? Este bem que avisou a mana da formação da pequena. Não lhe deu ouvidos. Isso é coisa da sua cabeça, imagina, criança não tem maldade. Agora, evitava visitar-lhe. Cumpria o estritamente necessário, natal, aniversários, etc. Loira-burra, barrada ao convívio, entretinha-se com livros. (Aluísio Martins)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

????

Perguntas sem respostas

Cadê você?
De todo mundo
Em todo o mundo
Atrás da porta
Em toda porta
Por toda parte
Em toda arte
Sob a luz
Debaixo das sombras
Embaixo da unha
Os restos da noite
Dentro da boca
As sobras da vida
Que não tem mais vida
Por quê você?

MASA 19/5/8

PALHAS DO COQUEIRO

SUOR
QUE ESCORRE
FAZENDO CARINHO
QUE PERCORRE
ALHEIOS CAMINHOS
NO GOZO
NO FOGO
DE MANSINHO...

MASA.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Reu do Rio

Assumi que sou um navegante dos ribeiriços em acodir a si
riscos e desatinos; a primeiriços de que torna-me no que vi.
Suspenso por entre um matagal alto, esqueço do que falo e salto para
triste olhar dispenso.
Ao que perdi meu fio da visão, vejo o que vi ao longe, numa enevoada
casa de monge atravessar os que dito um pedi.
à outra margem, soçobrando peixes, desses que deixes por ti levarem
livre na estiagem.
Oi para o que passa, com o rio embassa, eriça e sente formigar da
divisa que chega ao encontrar com o oceano quente.
Tudo o que vejo é escaldar a verdadeira chegada do alvorecer na certa
esteira parecer, aeon e pincel e ensejo.
Para o rio atravessar, conta-se quantas são as tantas mãos as quais
remam e se despedem mais que se perdem no desaguão.
E, tudo isso é infinito, Deus que os pôs à nossa vista, cousa antiga
e tão bonito.
Tudo, então que é, se é para o rio, uma mulher -- a chamo ré. Mas como
sou homem, meu abdome é só o cio para parir um rio do que ter fé.
Sou réu do rio, e não tardio a descobrir o que ele é.

Petro

Fortaleza, 11/09/08

domingo, 28 de setembro de 2008

NOITE LONGA


A SOLIDÃO É COMPANHEIRA

BATE NO OMBRO

AFAGA A BARBA

ENCHE O COPO

(COM O MESMO ARDOR QUE O ESVAZIA)


A SOLIDÃO É COMPANHIA

DORME AO LADO

VIVE DENTRO

MORRE LONGE


MASA - 24/9/8

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O que eu seria se não eu não fosse eu mesmo?

Eu provavelmente quase nada faria. Não doeria em ninguém, de preferência. Mas também não me candidataria a ser mártir de causas alheias. Teria mais defeitos, com certeza. Porque ousaria mais e mais e mais. Outra coisa que faria, seria destruir todos os relógios do mundo e todos os calendários também. Compromissos só agendaria para a próxima vida (se houvesse). Caso não fosse possível a extinção de tais contagens, faria, por decreto, todos os dias terem autonomia de se instaurarem de acordo com suas vontades. Por exemplo, a segunda-feira só despertaria num outro dia, provavelmente com duas ou mais horas de preguiça - palavra que alguns insistem em chamar de atraso. Mandaria de volta para o reino maldito da coca-cola, o seu mascote, o Papai Noel. Se fosse mamãe, ainda vá lá... E que mesmo assim fosse, que não se fizesse das renas trabalhadoras braçais. Isso não. Até porque, as mulheres bem sabem voar - com vassouras e outros instrumentos mágicos. O cumprimento oficial e solene seria beijinho de esquimó e de borboleta. Que coisa linda, presidentes de nações esfregando seus narizinhos e se fazendo cosquinha com seus olhinhos. Seria uma boa medida para medir as suas mentiras (narizes), não? Então, estou vendo mesmo é que eu seria, acho, que um ditador. Mas um ditador que iria obrigar todo mundo a ser anarquista. Só se podia ser fiel a si mesmo. Ou seja, todos teriam, sob pena de vida, que ser muito felizes. E você? O que você seria? (Aluísio Martins)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A CONDIÇÃO HUMANA - André Malraux

Pag. 280:
“Sou atirado para fora do tempo”; o filho era a submissão ao tempo, ao fluir das coisas; com certeza, no fundo, ...era esperança como era angústia, esperança de nada, espera, e fora preciso que o seu amor tivesse sido esmagado para que tal descobrisse. E, no entanto! Tudo quanto o destruía encontrava nele um acolhimento ávido. “há algo de belo em estar morto”, pensou. Sentia tremer nele o sofrimento que vem dos seres ou das coisas, mas o que vem do próprio homem e a que a vida se esforça por no arrancar; podia escapar-lhe, mas só deixando de pensar nele; e nele mergulhava cada vez mais, como se essa contemplação aterrada fosse a única voz que a morte pudesse ouvir, como se o sofrimento de ser homem, de que se impregnava até o fundo do coração, fosse a única oração que o corpo do filho morto pudesse ouvir.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

OLHA A ELEIÇÃO AÍ, MINHA GENTE!!!!!!

Pai, tenho um trabalho para a escola! Posso te fazer uma pergunta?
- Claro, meu filho, qual é a pergunta?
- O que é política, pai?
- Bem, política envolve: Povo; Governo; Poder econômico; Classe trabalhadora; Futuro do país.
- Não entendi. Dá para explicar?
- Bem, vou usar a nossa casa como exemplo: Sou eu quem traz dinheiro para casa, então eu sou o poder econômico. Sua mãe administra, gasta o dinheiro, então ela é o governo. Como nós cuidamos das suas necessidades, você é o povo. Seu irmãozinho é o futuro do país e a Zefinha, babá dele, é a classe trabalhadora. Entendeu, filho?
- Mais ou menos, pai. Vou pensar.
Naquela noite, acordado pelo choro do irmãozinho, o menino, foi ver o que havia de errado. Descobriu que o irmãozinho tinha sujado a fralda e estava todo emporcalhado. Foi ao quarto dos pais e viu que sua mãe estava num sono muito profundo. Foi ao quarto da babá e viu, através da fechadura, o pai na cama com ela. Como os dois nem perceberam o menino na porta, ele voltou para o quarto e dormiu. Na manhã seguinte, na hora do café, ele falou para o pai:
- Pai, agora acho que entendi o que é política.
- Ótimo filho! Então me explica com suas palavras.
- Bom, pai, acho que é assim: Enquanto o poder econômico fode a classe trabalhadora, o governo dorme profundamente. o povo é totalmente ignorado e o futuro do país fica na merda!!!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

KOURNIKOVA


LI ANNA

E que letras

contornos incríveis,

com seu estilo clássico

LI ANNA

que conjunto de palavras

que sonetos

que sonorização na minha cabeça insana

LI ANNA

que fim!


MASA

domingo, 31 de agosto de 2008

amar, brigar, escrever - foder

Há somente três coisas que sei fazer com êxito: Amar que é, em suma, foder de certa forma; brigar que pode ser também uma outra forma de foder; e escrever que é foder de toda forma.
Quer dizer, bem ou mal, só sei foder.
(aluisiomartins)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

CINEMA EM CASA

SACO!!!!
Ontem fui me divertir...pelo menos achei que seria, em tempo integral!
Mas o quê?!!
Um dos melhores e mais gostoso filme do circuitão nacional "NOME PRÓPRIO" do Murilo Salles.
E quem mais? Uma sala cheia de comentaritas e narradores. me senti vendo o filme como se fosse um "brasileirão" com direito a Galvão Bueno, Renato Marsiglia e Falcão, juntos, falando ao mesmo tempo.
Como falta educação em nossas salas de cinema! mas, também, querer o quê?
Falta na sala de estar, de jantar, no quarto, na cozinha, na escola...por que o cinema seria exceção?????

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

FLORES E FOLHAS


cada parte sua que desliza sob minha mão

É uma pétala do que você representa no meu jardim

Suas folhas, que passeiam no meu corpo

Trazem o aroma infindável de nossos beijos.

E sua flor, que molha quando toca meus lábios,

Exprime o pulso que explode dentro do meu desejo.

Assim, você: flor, eu: jardim,

Continuamos brilhando sob a lua dos suspiros

Dos eternos namorados apaixonados...

AQUIRY


Céu negro das nuvens

Que vêm banhar

O verde cheiro de

Amor à terra.

Este chão duro

Onde piso a

Trilha aberta

Pelo suor da vontade

De chegar lá.

Longe.

Não na distância

Mas no fomento dos desejos.


É agosto. Tempo sem cura nem alívio. Estamos à gosto de delírio.
Eu me cobriria de silêncio se ousasse apenas um único questionamento: o que ainda não foi dito?
É por estupida surdez que ainda me insisto.
É por estoica mudez que ainda me grito.
Não conto até dez e cego e inconscientemente me repito.
Acontece que o ser humano – e talvez todo ser animado – só consiga o entendimento, a liberdade, quando se apropria dos verbos e quando expropria o pensamento. Pensamento é conjunto e portanto sempre coletivo. Para que se exista, há que se conjugar.
Desta maneira que palavras precisam e devem ser engolidas, digeridas e expurgadas depois adubando vidas, ainda que quando expelidas nunca mais serão as mesmas.
Claro que precisam ser expelidas. É aí que se adubam as existencias. Caso contrário, empedram. Engolir palavras na ponta da língua mumifca a vida. Causa alteração drástica de humores com rumores de desistência. Causam tumores a revelia dos maniqueísmos. Não importa a malignidade como coisa e fato. O fato é que essa carcomência apodrece o existir. A boca encerra, cheia de dentes fissurados, se trincando por não terem o que morder. A língua morre a míngua de excesso de escuros.
A dúvida quando nos cala à força do medo pode ser medusa terrível. Porém, nem meia duzia de versos e prosas já é sublimação consistente.
Toda essa fisiologia não é simples como parece. Os três movimentos se desentendem com frequência. Disputam nas interdependências suas inteiras independências. Estão atados mas não por gosto. Prova é que expelimos muitas vêzes vazios. Gases inócuos que advêm do oco das sensações. Noutras mal provamos do recém-dito e, como fosse pimenta braba engolida a seco, cuspimos iras, incinerando toda a chance de entendimento. Após certo tempo é que, sanada a queimadura, realizamos a maturidade sem desditos. Ou seja, memorizamos os sabores que serão utencílios fundamentais e jamais serão esquecidos.
Nessa matéria, tudo que existe se consiste de peso e medidas extremas.
Note-se o elefante maduro que com suas toneladas quânticas, paradoxalmente, dá preferência as folhas e aos frutos. Quer dizer, sabe da necessidade do equilibrio no diálogo das diferenças.
Antes do meio termo, o homem andará em meio as incertezas. Terá que provar de tudo.
(aluisiomartins)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

O Escritor

Para não ser simplista
o mal de todo artista
o bem da humanidade
escrever com vontade

Para não cair no clichê
Para não perguntarem por quê?
É preciso ser
Escritor pra saber.

Na pauta, a pena
Na voz, o poema
Na vida, a cena
Em si, este lema

Cair em si
é para o escritor
como rir
ao sentir dor

Tão leve ao vento
estão as palavras
que ao desatento
são só palavras.

11/08/08

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A fala de quem não falha


desconheço o autor da obra*


Não escuta e já retruca. Assim é fala de quem não falha por covardias.

Ah, foi culpa do pingo que molhou fora do... Ih, deu tudo errado – vou pedir a Ele dias melhores.

Aja, mas não como a naja que se move iludida da flauta de mantras.

Aja com termo próprio.

O opróbrio é bom brio de quem ousa.

E bom brio tem bem mais que mil e uma utilidades.

(aluisiomartins)

terça-feira, 29 de julho de 2008

Despe-me!...


Foto: Aloisio Brito

Agora que o Calor se aproxima…

O corpo pede…

Despe-me!...


Boas Férias!

domingo, 27 de julho de 2008

666

CÃO DOS INFERNOS

DIACHO DO RIACHO

CAPIROTO SEU ESCROTO

BICHO FEIO, COISA RUIM

GRUDA NA CARNE

PULSA NA PELE

ADORNA MEU CORAÇÃO



Gente cara,

Sou mestre na arte de encompridar pavios. Decerto que guardo no sótão meus artifícios. Fogos? Preciso do que me arde.

Meu alimento é combustão. Meu querer é combustível. Os percalços? Incinero e gozo, qual imperador, a arquitetura chama nos palácios que não me cabem. Nenhum. Nada de palavras-grades que podem conter o incontível como um “eu te amo” dito pela covardia de se ser odiado.

Da matéria que prima pela arte (arte-manhã-alma-minha), verto meus derivados e causo vertigem pelo impalpável e irredutível impagável meu existir.

Palavras justapostas, justamente, ditas ou expelidas de outra forma outra, elucidam o mistério de vencimento improdutívo do vendendor vendendo vencedores natos dos nossos melhores (pro)dutos.

Oficilmente, grandiloquente levo alimento aos que têm fome e fermento aos que anseiam fama. Inchem, pobres condenados. Hei de explodí-los de tanto elogio.

Em cada cena, um anceno e outras mil mecenas despercebidas nos meios-fios deslavados da estética do bueiro que sugere mergulho sem volta.

Caso eu falasse fluente, e falo, diria que sou improvisado pelo que há de sobrevida. Pelo que ainda pode haver de sobra. Nunca abaixo disso.

Sim, sou dados aos vivos (portanto, belos) contextos.

Em todos os sentidos, sou um homem de palavras. Estas são retro escavadeiras que lavram terra nunca dantes visitadas, nem por isso inéditas. Apenas elas aram estradas para o transporte dos ensejos e semeiam desejos e vícios que teimam pela felicidade.

Sou tira-teima da prova dos mais que nove possíveis outros mais inteligíveis à mim, quem sabe.

Ninguém sabe. Nem mesmo este que, a esmo, pleiteia pulo sobre o muro de silêncio, de silício, de Berlim, de China, de bem aqui, dentro do peito.

Longuínquo, digo...
(aluisiomartins)

domingo, 20 de julho de 2008

Boa praça


Foto: Dra Aline Piol - Médica do Sertão

Por onde andam os poetas?

Em que breus moram os andaluzes cá do nordeste?

“bichos escrotos saiam dos esgotos”

Olvidamos os duelos de repentes.

De titans.

Duo elos de muitas candeias.

A dialética da fome surtada

[mais que comida ao organismo físico e tísico

Com a forma sucinta

Suscita apêndices, regurgitares, regozijares

Apendicites agudas da indigestão do umbigo

Em gestão consoante

A sugestão do Chef

[Que se prove

[Que se pague

Pelo importado

Cof, cof, cof

Nossa língua parece que engasgou no tempo

Perecemos quanto mais parecemos...
(aluisiomartins)

sábado, 19 de julho de 2008

adiVida


desconheço o autor da foto

Toda via é ida e volta
Todavia, nem toda via é via para se achar caminho

Em via de regra

A via mais curta encurta a vida
Quando havia outra via ainda viável

Ávida pelo viajante

que se via
no outro lado
da via
que se vinha

No viaduto enviezado

Aviário, apesar do peso
A via era de mão dupla
Quando nada mais havia

A via sacra sacrifica a vida, saca?

A veia esgota ao longo da jornada

Se alivia

A via láctea engarrafada na porta da casa
Com prazo de vida

Se alí via
A vida outra na morada da alma
Comprazo de vida

Onde a via em carne viva

Mais viva que a minha
Havia de ser
Minha via toda por toda vida minha

(aluisiomartins)

terça-feira, 15 de julho de 2008

Grão em grão


Foto de Celso Oliveira

Eu já os admirava pela polidez e pelo polimento. Embora gregários, uma autonomia sutil como deve ser a liberdade – sem alarde nem oca publicidade. Decerto que, à primeira vista, causam impressão de arrogância. Até mesmo blasé. Mas não passa de ilusória impressão. Poderiam, se quisessem. Porque vivem acima das nossas possibilidades. Porque vivem abaixo com nossas impossibilidades.

Possuem arguto senso estético. Pairam somente onde as inteligências fizeram (fazem?) história. Urbanos. Não por qualidade nata. Mas por excelência. O que dizer de suas observâncias? Postados em refinados parapeitos ou majestosas sacadas, assistem, fixamente, nossas incoerências quando cuspimos nas baixelas que nos servem manjares.

Para eles migalhas. Grão em grão de ignorâncias. Nenhuma honraria. A não ser por uma já esquecida relação com a paz – cada vez mais rara entre nós.

Ao contrário de tantos que primam pelo hediondo (lucram, inclusive), estes tem almas de artistas e um profundo respeito pela história.

Casarões, monumentos e praças são predileções para os passeios matinais ou vespertinos. Nada de modernidades capitais.

Fotogênicos que são, pousam para posteridade em praças Paris, inglesas e papais. Adornam os retratos daqueles que possuem pouca ou nenhuma memória.

Trabalham gratuitamente em prol da dignificação das virtudes. Apesar de levarem a vida no bico: cartas de amores distantes ou proibidos e trevos. De quatro folhas, que se diga. Nutrem, portanto, a beleza das coisas.

Nós, em estado quase vegetativo, damos milhos aos pombos.
(aluisiomartins)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

PÁGINAS SEM FIM

Páginas Amarelas

Nas páginas amarelas tem tudo que você não procura, não precisa, não quer saber.
Tem amarelo demais, preto de menos, nenhum branco, azul aqui e acolá, verde...nem pensar.
Nas páginas amarelas, de tudo um pouco, do muito, nada. Ordem analfabética das coisas desordenadas, sobrepondo-se como vespas (amarelas?) ordenadas e alfabetizadas.
Sobram números de páginas soltas na vã procura, códigos, telefones ocupados ou desculpe, é engano.
E suas digitais nas orelhas, como o livro de leitura chata do milionário operário presidente bóia-fria analfabeto imaculado e nunca, nunca, enquadrado.

MASA
8/7/8

domingo, 13 de julho de 2008

Virtualismos (reprise, mas inédita - tudo flui)


Desconheço o auto da bela foto


Acabaram com as caixas de correio. Conspiram contra as cartas. Sentimentos eternos para destinos estáticos que, sob vigilância feroz e angustiada, aguardam boquiabertos o seu mundo mudar.

Elas, as cartas, quando chegam, arrancam lagrimas, gritos e risos. Ouve-se músicas antigas. De fossa. De bossa. Acompanhadas por um pileque, atrasando a fome e acelerando o amanhã de manhã, que nunca chega.

Elas, as cartas, quando saem, temperam a pele com o sal que vem do mar e cozinham a pressa em banho-maria, com fogo brando que derrete, lentamente, a esperança do reencontro, e uma brisa seca o suor derramado no apelo efêmero.

Hoje, por teclas insones, se enviam palavras mudas aos endereços fúteis que, sem culpa, nem pudor, acumulam em suas lixeiras o dialeto da esquiva, dos que desconhecem as esquinas da vida, cheias de bares e brilho. Onde, pais e filhos procuram, furtivamente, o paraíso prometido, tentando fugir da nova poltrona, da velha matrona que espera, com olhos arregalados, seus pobres coitados retornarem cansados e vazios para lhes aquecer os pratos e esfriar-lhes o pranto. E, durante seus roncos, se sonha meretriz do ídolo das oito.

Acabaram com as caixas de correio.

Acabaram, severamente, com Chico e Marieta, que se amavam pelas cartas que cruzavam o atlântico, os rios, as florestas e, sempre, não importando o destino, chegavam a Paris.

Acabaram com as filhas que se perdiam no velho mundo e usavam, como desculpas, as cartas - é tudo culpa do correio mamãe. Na carta perdida está minha vida, escrita, tintin-por-tintin. Já vou me despedindo, tenho aula de artes cênicas. E, cinicamente, choravam de rir.

Acabaram com as caixas de correio.

Acabaram enfim, com a saudade que, na distância, fazia o amor ser visto mais de perto e mais bonito.

(aluisiomartins)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Urbe


Vejo um bando de gente-mosca transitando lixos urbanos. O caos inerente à alma de quem se alimenta de réstias. Mas há uma harmonia, ainda que sutil. Lá se vão, de ilha em ilha, de prato em prato. Rápidas e precisas. Sem abalroamentos e contusões mais graves. Estacionam somente na hora de alçar de vôo para o outro lado. Esperam a passagem dos monstros ensandecidos que seguem suas preferenciais. Elefantes histéricos e rinocerontes deslumbrados. Isso tudo compreendo. Exceto suas músicas estereotipadas. (aluisiomartins)

o apreço da arte




Decretada a greve das claquetes
O descanso das interjeições e grunhidos premeditados

Desço o palco travestido de mentiras
[e muitos dramas

Desafio o estúpido sorriso
congelado na cara do expectador
que anseia a queda

A arte
[caríssima
vive nos poros
dos lixos esquecidos
dos becos e sinistros
dos leitos

Terminais das estações sem termo
[sem teto

Nas latrinas magras dos botequins
que revelam os hábitos e restos
[miseras vidas

Funestos adubarão a terra seca
Bem mais e melhor que suas sucatas inúteis

Nos charmosos recantos
choram as academias
[desentendem a paisagem
do bizarro aquário onde se diz:
Não dê comida aos macacos.
(aluisiomartins)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ingmar Bergman

Estou re-lendo Vida de Marionetes de Ingmar Bergman. Livro-roteiro dando continuidade de vida ao casal de Cenas de um Casamento. A dor de se viver a dois. Um pacto de solidão e ódio disfarçado em silencio.

Entenda-se por esse ódio algo mais além e profundo que raiva ou qualquer emoção rompante. Nada disso. Quase tão forte quanto o desprezo. Daí um amor profano. Quem não sentiu ódio de Deus por tanta indiferença, por vezes? Todos podemos matar? Inclusive e principalmente a quem mais amamos. Basta plantar a semente da imagem crime-castigo e, brevemente, nasce um plano incoercível, portanto, vital. À somente um, que se diga. Dado que é plano de morte do outro. É como queima de arquivo que tanto acontece por aí. Conhece meus segredos e corro mui provável risco de infâmia.

Antes escolher a viuvez que soa tão digna e inerte de máculas que o eterno retorno do não. Desde criança implantado na ex-futura coragem de ser.

Bergman não se conformou em deixar a velhice se empanturrar de dias inóspitos. Foi providencial. Bergman foi Deus. Como somos todos. Genitores de inúmeros destinos. (aluisiomartins)

Mãos de fado - aluisiomartins

Desde em tenra idade já me sabia um nostálgico incurável. E pior: sem encontros concretos, do tipo que nos chegam indiscutíveis e não nos chagam indeléveis. É óbvio que, de certa forma, para mais ou para menos, é a assim que corre o rio do viver humano, em geral. Mas meu caso é mais crônico – fui embevecido em tonéis e mais tonéis de utopias e poesias. O lirismo me persegue desde então. Tanto mais no ritmo solene, austero, condolente, até. É bem possível que antes, em outras encarnações, eu tenha sido um daqueles que sonhou, sonhou, sonhou e se afogou em lìquidos de sentimentos.

Hoje, sou um praieiro que evita o afogamento temido, molhando levemente os pés n’água. Claro, existe ainda o risco iminente de Tsunami me atingir em cheio. Mesmo vivendo nestas bandas secas. Porém isso é coisa pouca, miúda mesmo, para quem já vive sob os caprichos da lua.

O negócio é que quando escuto, seja uma voz interior, seja um canto místico acompanhado de um violão, fico completamente sem rumo. Desnordesteado. Dou-me o direito ao neologismo. Não há o desnorteado? Ora mais... Bem, nessas horas as glândulas responsáveis pela produção de sede e lágrimas começam a trabalhar em ritmo frenético. Fico mareado e bamboleio atrás de um molejo ou uma cadeira que se faça de colo ao filho perdido. Daí em diante meu destino está traçado: mais uma noite nos braços da eterna jovem e sedutora madrugada. Essa moça que sempre se renova, pois dorme, invariavelmente, logo que o sol dá vistas de que está surgindo e só acorda quando seus amantes já lhe cantam, mais em versos que em prosas, para que nunca mais os deixem sozinhos, sem amor.

Não se trata da solidão física, percebam. Nunca se está sozinho quando se tem amor para dar. Encontrar o objeto deste amor é uma outra estória. Porque para nós, nostálgicos, ele (o amor) nunca se encerra, nunca se sacia e nunca mesmo se suicida. Senão não seria nostalgia e sim assassinato ao bem maior que é a vida que, para seres como nós, é um detalhe muito relevante para que possamos gozar de nossa natureza rara.

A alma é maior que a casa que nos carrega – o sentimento de aperto é inevitável. O mundo é bom! Nós sabemos disso melhor que ninguém. Tanto que a nossa medida maior é a intensidade e não o tempo. E mesmo quando ruins tais sentimentos, ainda assim é maravilhoso sentirmo-nos, como diria? Nostálgicos, isso. (aluisiomartins)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Relação passada à limpo




Dove, que fora sempre muito polido, agora, espumava-se de raiva.

Nívea lhe dizia: mesmo que eu perca minha reputação, você não tardará em lamber meu corpo. Não fizeste economias em me prometer que contigo eu seria uma rosa perfumada. Vai ter que afundar comigo. Nívea vociferava, enquanto enchia a banheira.

Dove: terei culpa se te iludiram? Tua pele, por acaso, enruga por minha causa? Nunca falei que sanaria os acidentes de tua vida e cobriria tuas lacunas, tão evidentes. Não me quer? Jogue-me no lixo.

Nívea: você é igual a todos: um covarde! Já fala em me abandonar? Sei bem qual o teu plano: quer me ver na lama para que, em seguida, eu recorra aos teus serviços. Você fede. Suja-me! E pensar que eu me abri inteira...

Dove: e você, puritana? O que faz por mim? Só me critica...

Nívea: não fosse por mim você morreria largado num canto qualquer. Vencido! Já nasci cara. Não preciso me promover! Dou-me o devido valor. Meu erro foi dar ouvidos a minha vizinha, Vinólia, que falou que tu estava dis-pu-ta-dís-si-mo. Você não vale o que pesa. Morra, desgraçado!

E Nívea afogou-o, sem piedade. De Dove só se ouviu interjeições ininteligíveis - glup...

(aluisio martins)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

amor errante



Indepentemente de precipícios ou profundezas serei errante.

Amar é uma estrada sem retornos.

Há que alimentar-se de tudo, até que se descubra o que nutre e o que mata.

Não foi assim que muitos alimentos foram descobertos? Como terá sido a descoberta da mandioca braba como alimento?

Foram necessários sete dias de cozimento em fogo alto para que se comesse dessa iguaria sem o fim instantâneo.

No primeiro dia, um infeliz deu-lhe uma mordida e batata: ta lá um corpo estendido no chão. No segundo, alguém pensou em ferver e ferveu. Quem se arrisca? A curiosidade mata e matou – mais um. Isso, sucessivamente, até o sétimo dia – e Ele já podia descansar. Nenhuma alma penada, desde então, foi para além (ou aquém) por ter ingerido a mandioca que não era mais braba assim.

Todos mataram o que estava lhes matando - a fome. (aluisiomartins)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

ANA BODANSKI OLHOS E SORRISO

AINDA QUE O
TEMPO PASSE
MIL VEZES MAIS VELOZ
NADA MUDA
NA ESPERANÇA
DE COLAR MEU
CORPO NA TUA
VOZ
ASSIM
COMO O
ESPINHO
DA ROSEIRA.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Má Sorte

Entrando pelo seu portão
está atravessando o lado
para quem estiver no chão
não esquecer para que fado
esquecer que essas linhas
são tão tuas quanto minhas
tirando a sorte, descobri
o que sem fragor era insistir
nas tantas voltas que o mundo dá
o quadro se forma sem fim
do pintor é enquadrar
o remédio dum dia ruim
assim seguindo as regras só se é
enquanto quebrando e dar no pé
é mais ou menos de mim
essa história de apostar tudo
só dá certo com reserva
do outro canto me conserva
inteiro o azar de todo mundo.


PETRO.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Dia útil



Era uma vez, numa linda tarde de verão, um homem muito trabalhador que ao retornar de sua labuta na grande cidade, tomou um refrescante banho, sentou-se em confortável assento e se pôs a imaginar...

O pragmático

Enfim , dever cumprido. Fiz parte da grande máquina. Servi de engrenagem fluídica e, por vezes, motriz ao rumo necessário. Deito com jus em noite serena. Boa noite querida e beijo-lhe a testa, pois, amanhã, o dever, certamente, me chamará.

O matemático

Foram quase trezentos quilômetros percorridos em média velocidade onde o termo é bem medido pela vista macroscópica das possibilidades. Na metrópole descendente os fatos contam-se em parábolas. Provavelmente, duas mil pessoas dedicarão duas horas ao infinito discurso. Duas horas. Uma fração diante do peso das vinte e quatro que não durarão, de certo, mais de cinco décadas. E olhe lá! Dei-me ao limite. Arquiteto fórmulas precisas a me verter em cones e vértices.

O político

Mesmo em meio aos obstáculos, levei alento aos famintos de sonhos. Lutei com bravura e mérito para que as promessas se cumpram solenemente. Ainda houve aquela pobre criança que levei ao colo. Fui às lágrimas porque luzes me ofuscavam. Esse mundo tanto precisa de mim. Será que ouvi palmas?

O idealista

Ah! Como o ser humano carece de alimento no sentido mais holístico que se possa pensar. E pensar que se investíssemos na educação, formal e complementar, haveríamos de reparar a vertigem da ganância humana. Vejo algum bom exemplo passando na telinha. Com meio dedo (de prosa) o presidente jurou acabar com a fome. Já está na hora de jantar porque saco vazio não se põe de pé. A luta continua!

O idiota

Olha só, quanta menininha gostosa. Só pitel... Eu aqui, de carrão, vim da Aldeota e vou me dar bem. Como será que está meu cabelo?


O poeta

Quanta desventura. Mundo miserável esse. Não passo de um covarde. Vou criar vergonha na cara e largar tudo. Vou ajudar essa gente. Vou escrever para o jornal: Somos tantos quais flores atoladas no asfalto movediço. Pavimentação? Melhor genocídio. O rolo compressor une o homem à lama. Endurecido. Mudo. As Rosas? Essas falam: quem exala – e mal – é o canalha constitucional . Vida, bela bosta! Vou tomar mais uma cachaça (... e esquecer de tudo. As dores do mundo...).

Eu

Cuidado! Um rato...


Aluisio Martins

terça-feira, 24 de junho de 2008

Carcará. Pega mata e come...



Pertenço ao desmando do mundo sem exclamação e interrogando o presente que naufraga ancorado num ponto ululante mais incerto sem virgula e sequer sentimento coerente no desvario latente que atropela o ofegante por tentar alcançar a margem outra bipartida pela corrente-lava que leva minha resistência em existir no abrigo de janelas bucólicas e parapeitos simplórios sempre apontando as recordações ingênuas cultivadas no jardim dos prudentes já indiferentes às agruras e um bolor de angú(o)stia que vai anginando flagelos precoces no peito infante do medo do farto e corrupto infarto a-sustar cegos inúteis defronte aos semáforos desprovidos de sincronia e indulgência pública por esperar o trem da morte e atrasar o mínimo-máximo pão surrado e acre sob as axilas da infâmia louca e montada no púlpito para os discursos eruditos inaudíveis para pés rotos exibidores da frieira típica dos estéticos da fome das ongs-carcarás sem labuta digna de perdão reticente mas sempre abundando na fruição das reticências e mais reticências...

aluisiomartins

segunda-feira, 23 de junho de 2008


ELA

23/6/8


ela canta

ela dança

ela usa

ela abusa

ela me pisa de bota

ela me ama, nem morta...

ela derruba minha porta

ela colore meus sonhos

e embala meus lábios

com suas canções de amor e loucura

Carol, Filomedusa.


MASA

quarta-feira, 18 de junho de 2008



Das armadilhas do espírito.



Um mestre cantador...

A evocar

O lamento agreste

do o índio na aldeia

feito criança no mar...


Um filho do vento...

“Alma” de arribação

Num choro saudosista

Arrilia

Seu violão.



Renata Holanda



Mestre RIbeiro ... escute ...
http://br।youtube.com/watch?v=4tKXJaN1IsM


terça-feira, 17 de junho de 2008

HOJE

15/6/8

Hoje eu acordei nu.
Bem estrito.
Nu.Longe.
Seco.
Nu.
De tudo.
Nem sabia porque usava aquela roupa, aquela máscara, aquele sonho.
Afinal, estava nu.

MASA

domingo, 15 de junho de 2008

TPM do mal

Tem dias em que
Parte de mim lacrimeja
Molhando meus sonhos pelas tuas partidas ao vento...

MASA

TPM do bem

Todo
Poder às
Mulheres

MASA

sexta-feira, 13 de junho de 2008

A Ilusão

A esperança, essa dançarina
como uma vaga luz de lamparina
segue-se da branda flama
sorri quando nos falta
[alegria.

Só uma pessoa, Ó poesia
sensível, sim; ela poderia
Obscurecer essa lâmpada,
somar ao fogo a lama.

E, dentre indas e vindas
solucionar a soberana,
balbuciada e estonta,
essa pessoa é a qual canta
[a Ilusão.

Boa de ser vista tanto ao verão
como bulímica, ao esfriar:
a bituca jogada ao ar
é seu nome esperança, supetão.

sobarando a nós, filhos do
[fogo
uma breve prece e muito rogo.


Fortaleza, 07/06/2008

A Ilusão

terça-feira, 10 de junho de 2008

10/12/8

Corto reto pela vala
Rumo incerto ao esgoto
Na pele, o Capiroto,
Cheio de fantasmas...
Caio fundo na lama
Respiro, mente insana
Risco o peito com o fogo
Rasgo a carne
Vomito a fama...


“Hoje eu to com o Cão nos couros...”

MASA

segunda-feira, 9 de junho de 2008

AO BERNARDO PEREIRA



B ONITO COMO O QUÊ!


E LE VEIO ILUMINAR.


R AZÃO DE TODO VIVER,


N ADA A SE COMPARAR.


A MOR PARA TODA VIDA


R ISONHA FLOR DO DIA


D OU MEU SANGUE


O NTEM, HOJE, AMANHÃ, SEMPRE.

sábado, 7 de junho de 2008


Inteligentes os burros da minha cidade.

Desafiam as pistas cheias de jumentos blindados.

aluisiomartins

São tantos os carros, carros, carros

Nos custam tão caros, caros, caros

Deixam o mundo aos cacos, cacos, cacos

Os pássaros que eram calmos, calmos, calmos

Hoje já são raros, raros, raros

Motoristas entopem os ralos, ralos, ralos

Desmentem seus falos, falos, falos

Pedestres em pânico calvos, calvos, calvos

Progresso criando calos, calos, calos

Corações se vestindo de cactos, cactos, cactos

Civis servis engrossando caldos, caldos, caldos

Sonhos morrendo castros, castros, castros

Monstros plantando mastros, mastros, mastros

Crianças pedindo pratos, pratos, pratos

Ricos contraindo infartos tão fartos, fartos, fartos

Traindo contratos em maus tratos, tratos, tratos

Pobres lhes causam ascos, ascos, ascos

aluisiomartins


Quem dá mais?

Quem comprou minha alma de Maria? O pai vendeu-me o corpo, santo. Mas não vedou-me do pecado. Sou Maria, bem cheia de graça. Posso ser comprada nas praças e avenidas durante penitências noturnas. Na desgraça, pensei em vender a alma ao Diabo. Já comia do seu pão – duro e pisado. Recebi muita oferta. De toda sorte. Até oferendas e fitas do Nosso Senhor... Não fiz pacto. Paguem e levem meu corpo de fino-trato. Eu, Maria, mulher fácil? Fácil é homem que cai no meu rebolado. O padre também me quer? Conheço tua missa, covarde. Eu dou... E que Deus me pague! Mas alma de Maria não se vende. A quem interessar: que me desvende.

(aluisiomartins)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Vamos tomar umas e outras?


30/5/8


Caninha na chuva


Pinga, pingo.

Pingo, pinga.

Pinga pinga.

Pingo pingo.

Pinga pingo de pinga.

terça-feira, 3 de junho de 2008

noite fúnebre

Houve mais uma vítima de atropelamento nesta última noite. Faleceu no mesmo instante sem tempo possível para socorro. Seu corpo foi completamente esmagado, deixando seus restos espalhados pelo chão, o que causou grande choque àqueles que testemunharam o acidente.

O causador dos destroços foi levado para inquérito e, ao prestar depoimento, declarou ser inocente, alegando que retornava de um bar onde estava bebendo na companhia de mais três amigos, por volta das quatro da madrugada .

Ressaltou que não houve tempo para desviar ou mesmo parar porque a vitima atravessou seu caminho correndo sem se dar conta de sua existência. "Na pressa fisiológica passava apressadamente pelo estreito corredor e ela, simplesmente, se jogou sob os meus pés".

Os familiares da barata não quiseram se pronunciar a respeito. O homem que a matou está inconsolável e se comprometeu a indenizar – fez juras de nunca mais limpar sua casa e que deixará sobre a mesa todos os restos de comida até o dia de sua morte.

Agora, neste exato momento, há um cortejo fúnebre formado por formigas e um grande velório acontece no salão com todos os presentes enlutados, vestidos de preto.

aluisiomartins

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Mar de Sensações


Foto: Nikola Borissov

Mar de Sensações

Posso sentir quando te imagino
Os teus lábios roçando os meus,

Posso sentir quando te imagino
A tua língua brincando com a minha,

Posso sentir quando te imagino
Os teus braços me enlaçando,

Posso sentir quando te imagino
A tua pele quente colada à minha,

Posso sentir quando te imagino
Os teus lábios percorrendo meu corpo,

Posso sentir quando te imagino
O doce arrepiar que me enfeitiça,

Posso sentir quando te imagino
O prazer em mar de sensações…

18 de Agosto de 2007

Anabela Braga

Suave Carícia…


Foto: Weng Ziyang

Suave Carícia…

Adoro sentir o vento, que docemente….
acaricia meus cabelos e, … com seus dedos suaves,
… os beija… e neles larga… um doce aroma inebriante
… do mar lá longe… aqui tão perto…

13 de Agosto de 2007

Anabela Braga

Porque Pensar? Saramago

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O mar já era meu, antes que o mar morto.

A morte é a certeza máxima e irrefutável, qualquer um sabe disso. Por isso lamento pouco as catástrofes naturais. De um certo ângulo, até admiro algumas. Imagine, ondas gigantes se vingando do mundo? Tenho pena de quem sofre a perda de alguém e, para eles, toda a minha compaixão e dor, mas não sinto por quem morre.


Já o meu mar, todos os dias tentam-lhe à morte e ninguém nada fala ou faz. Não me refiro apenas aos vazamentos de óleos em milhares de litros, nem aos dejetos de fábricas e esgotos. Para isso a lei até que tem se empenhado. O que me revolta é agressividade paulatina, quase muda. De grão em grão, vão agredindo o meu mar. Madames e gatinhas plásticas cobertas de óleos insistem em manchá-lo. Tudo para exibirem suas bundas modeladas, quando entram e seus peitos insuflados, quando saem. Seus filhinhos, quando tais os têm, mijam despudoradamente no meu mar. Vão-te pentelhos! Sumam daqui. As putas, digo, as disfarçadas de boa coisa - quanto as assumidas, admiro-as muito - acompanhadas de bêbados disformes, levam suas farofas com blondor e lavam-se lá. Fazem do mar o seu motelzinho. E o que é pior: vão se multiplicando a cada nove meses. Então, mais pentelhos, madames e plásticos em formas de bundas, peitos, garrafas, copos... Então, poluirão em medida igual a qualquer despejo ou acidente capital.

Ainda há os pálidos turistas carregados de pragas a caça de meninas “pobres e fáceis”, como dia desses ouvi um holandês a comentar com o outro numa fila de banco. Esses são os piores. Sujam o mundo. Trata-se de uma epidemia. Culpa de quem? Quem vendeu a imagem dessa terra para o mundo “civilizado” com propagandas cheias de meninas estampadas e seminuas? Pensem nisso e me respondam depois. (aluisiomartins)