quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

NÃO


28/1/9

...
Meu amor não passou na minha casa hoje, minha casa está vazia.
Meu amor não beijou minha boca hoje, minha boca está seca.
Meu amor não sussurrou ao meu ouvido hoje, estou surdo.
Meu amor não tocou minha mão hoje, não sinto mais nada.
Meu amor não falou meu amor hoje, estou com frio...
Meu amor não.
Meu amor.
Meu.
...

MASA

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

L e n t a m e n t e


Foto: Pedro Moreira
.
__________c a e m
______________...as folhas
______________________l e n t a m e n t e
___________repousando...
______________________s u a v e m e n t e
no banco vermelho do jardim...
e...
...na terra seca
____p’lo vento...
.
Outubro de 2008
Chinezzinha
Vi uma menina...

Mas o olhar era de mulher

mulher perdida

a dizer adeus...

mas não para mim...

parecia despedir-se do mundo

não de mim...

Mas que triste o seu adeus...

Sei que não era um fim

Mas parecia sim.

Pedtro.

Favela, espaço indefinido? A princípio o próprio princípio do caos. Um sítio de sitiados num quase um mundo fantástico. Para tantos é um mundo inexistente. Algo como uma gravura de um artista que sonhou ter sonhado com o avesso da paisagem - a favela. Uma paisagem estática, nada estética? Seus habitantes são filhos concebidos pela cruel estatística do "inevitável" desenvolvimento. Na raiz mesmo da palavra que pauta e norteia do norte ao sul do mundo, sem envolvimento parece mais adequado.

Entretanto, as favelas têm histórias e estórias, identidades e poesias próprias, imagens em cores e tonalidades únicas, sons e movimentos que atravessam a grande cidade e recolhem-se pelos becos e barracos. Um estômago sempre faminto do organismo social. Porém, muito vivo. Às vezes, sabe-se de vida e alegria bem mais que nos suntuosos palácios.

A favela sempre foi, é e espera-se que não seja, motivo de interesse de muitos - de poetas e boêmios a igrejas e cientistas e, agora, mais recentemente, também podem ser encontradas em boa quantidade as famosas Organizações Não Governamentais (ONGs) que parecem produzir algum barulho, a começar pela onomatopéia implícita na sigla. Um barulho que soa a queda de algum objeto denso ou mesmo o som da traquéia quando empurra o bolo de alimento pela goela abaixo.
aluisio martins

Ecologia do turismo


Os gringos ainda virão, de ruma, infectar, desflorar, humilhar e exportar as pobres e feias meninas nordestinas que, sem destino amigo, sonham (equivocadamente) esquecer seu passado negro (tão bonito).
Os homens-de-bem continuarão a cercear qualquer manifesto e trairão suas empanadas e prostituídas esposas fielmente, como mandam os princípios de macho do “bom” nordestino, com a ressalva de que lhe proporcionem respeitabilidade no âmbito da pequena sociedade burguesa.
O axé enlatado, o pagode sem raiz, o sertanejo irreconhecível e o forró pornográfico, indubitavelmente, manterão suas posições de representantes "legítimos" do povo.
Quanto aos cultos, o jazz, que mesmo sem entenderem bulufas do que se trata, será sua música ícone.
Políticos e italianos inventarão mais pizzas e filhos dos ilustres, das leis, bem mais que os primeiros.
Indignação não dura três copos de cerveja e os currículos impressos serão sempre a primeira e melhor impressão.
Todos os livros seguidos de PHD venderão aos milhares e o desespero enriquecerá cada vez mais os pastores e guias das trilhas do tesouro perdido.
No mais, sobramos em conta dos dedos, já quase submersos na sentina deslavada, dizendo: Senhor, olhai por nós...

domingo, 25 de janeiro de 2009

deixo que me há-pontes

águas coloridas de azuis inétidos porque transmutantes; peixes lúdicos no aquário dos sonhos porque translúcidos; feixes cúbicos, planando lúbricos no desatino do percurso porque geométrico; algas amalgamadas às vertigens das lembranças porque estanques; lamas tétricas, adormecidas e nauseadas de composições porque vencidas; folhas maduras, mordidas quando untadas de orvalhos e griladas porque verdes; restos de amores também verdes e mordidos e grilados porque sem início; paixões no fim da estrada, no meio, no antes do ‘se’ porque incertas; uma pedra que vem se descolando, sorridente pelo enfim momento de ser porque movente; uma queda que vai se quedando, por ser assim que ocorre uma existência porque pesada; uma ponte cheia de gente em direção ao outro lado porque secas; um monte de gente seca atoladas porque cheias; uma ruma de coisas abandonadas porque sem prumo; um rumo para as coisas intangíveis porque sem direção, mas com sentido. (aluisio martins)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A Praia do Atol

Parece que o sol
na janela que fito
embebe o granito
ilumina o quadro
a que olho sem mais
perceber o que traz
para dentro de mim

Surge uma sede
de água de côco
uma sede de louco
na minh'alma
uma calma
uma rede

cerveja gelada
areia fina
desatina
ela me aguarda

na barra, o mar
no corpo, Sundown
e o suspirar
da brisa leve
no momento breve
a pena escreve
a praia do atol.

Pedtro.

domingo, 18 de janeiro de 2009

domingo, 11 de janeiro de 2009

um dia, mulher


Ando morando em bolsa de mulher e tão perdido... Um batom. Um átomo de chance de ser lembrado na hora e lugar certo. Quem sabe, ela, minha dona, não me leve à boca e daí para outras tantas em beijos de paixão? Quem sabe ela não faça comigo um lindo sorriso no retrovisor? Posso até desenhar bilhetes de bis nas manhãs fugidias. Contornar espelhos móveis em pleno meio-dia. Um furto no estacionamento da vida, no meio do tráfego e me traficam na beira-mar para uma mulher importada. Quero pintar lábios de filha que se borra de rir, sonhando-se mãe como a sua, linda. Linda como a minha amada quando me deixou a despedida nos lábios selando o nosso fim. Mas são as mulheres que tomam decisões, sempre. Cabem-lhes as dores do mundo. Nós, machos, somos tão frágeis. Claro, fomos criados por mulheres - um referencial inatingível. Uma perfeição improvável. Satisfaço-me, portanto, sendo instrumento. E, de quando em vez, contribuir para um sorriso puro ao invés de uma lágrima de desprezo. aluisio martins

sábado, 10 de janeiro de 2009

O belo é aquilo que podemos ser. Mesmo que se pense que não se está sendo nada belo, há um futuro guardado no vento - um segredo da alma encoberta pela palidez dos gestos involuntários. Não se contam as horas, já nasceram mortas ou clamando pelo esquecimento. Devemos suportar as tempestades de silêncio para nascer do túnel escuro que nos afoga, por vezes. Um sono embalado pelos próximos milagres. Mas que se saiba, mesmo inertes somos crisálidas.Tão belos quanto a palavra com suas possíveis asas. aluisio martins

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009




Fico imaginando o que será isso. O que quis o fotógrafo dizer com essa imagem.
Pensei em perguntar a ele :
- Vem cá, bicho, onde foi que você arrumou isso ? E o que quer dizer?
Como o conheço um pouco sei que a resposta será insatisfatória. Um riso travesso e orgulhoso me irritaria. Talvez nem ele saiba ou então responda como algumas vezes me respondeu :
-É só foto-nada! O que diz a você?
- Se é foto- nada...Não diz nada, não é assim? Ou diz tudo, mas isso não revelo, sussurro comigo mesma. Tenho lá meus segredos.
Mas reflito, Caramba, Lia, você nunca foi tão "rasteira" assim.
Para quê saber?
Essa imagem me toca, de fato, de uma maneira que não saberia exlicar.
Uma espécie de "angústia estática" ou uma placa de aviso "atento ao perigo".
Uma sensação de impotência , de espera , de interrogação. Diante do desconhecido , do que não entendemos de jeito algum. E de que nem adiantaria tentar.
Ainda.
Impressão?
Não.A cortina se abrirá. Qualquer dia, qualquer hora.
O véu de uma outra dimensão está próximo a cair.
Estou ansiosa. E curiosa... Excitada com o que virá!
Porque virá, não se enganem. E está bem pertinho...Tão perto!
Desabando. Caindo no precipício. Criando novas formas. Desenhando novas paisagens, pintando novas criaturas.
Da terra, do céu, do mar ,de nós mesmos. Quem sabe do além?
À margem , uma observadora ou milhares de observadores anseiam O grito de liberdade.
"Independência ou Morte!"
Às margens do Ipiranga??
Seremos nós sobreviventes dessa próxima arca de Noé?
Ou tudo não passará de elocubração de mais alguém? Sem dúvida não serei a única.
Passado, presente, futuro sempre se repetem. Um replay constante de um mesmo filme.
Não me preocupa mais saber o que a imagem significa.
Mas que bobagem!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O Quadro

Fico sem assunto, predileto do ser agudo e sem
par.
Toda noite é assim, ele me olha nos olhos e eu
sem revelar nada.
Por que é que quando o olho nada acontece?
É tão distante assim de mim esse tenebroso
e dividido; escabroso e proibido?
Com certeza não se fez para assombrar,
mas para meramente embelezar, apesar
de alguns dizerem servir ele também para
exprimir.
Ah! Tenho meu direito de aporrinhar-me com
ele; não é perfeito o meu desagrado?
Muito menos ele é!
Se iluminar fosse para o que serve, então
de que importa essa luminosidade que o
ferve?
E não fala, não pensa e não sente e, sempre a exigir tudo isso de mim!
Qual o quê!?
É para brilhar, como vida tivesse, a seu bel prazer?
Ou só existe para se vender?

*

Delirantes, com a boca aberta sentem suas
cores...
E todos mais, com medo de serem flagrados
em sua ignorância, dizem serem as pinceladas
sabores.
- Não há dúvida de que é expressionista - roga
o moço tentando impressionar a moça quando
tudo é na verdade bastante naturalista.

*

Vem gente de todo o canto e, que eu aqui
que sou o encanto. Posso aqui parado
ver nesse quadro, o que num espelho
é ele quebrado.
Quem o pintou sabe fazer do que sumiu na
arte e virou você, e ele e ela e nós todos,
que somos quadros quando vistos
em remédio para os mal quistos, esses
que para o quadro são piolhos.

*

Dentro disso tudo, a sala, a luz,
a cor; o tudo ao redor e seu valor,
é o que se vê quando mui respeitosamente,
observa-se uma tela que não
seja a da TV.

Petro.

03/01/09

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

ºº Embriaga-te ºº


Os Bêbedos, José Malhoa

Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.

Mas com quê? Com vinho, poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.

E se alguma vez, nos degraus dum palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: “São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar. Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto”.


[Charles Baudelaire] in “O Spleen de Paris”

SOBRETUDO


Uma

Palavra

Sobre

A

Outra

Como

Nossas

Bocas

Sobre

Os

Corpos

E

Braços

Em

Abraços

Construindo

Esse

Pilar

Das

Letras


Pra

Dizer

Que

Eu

Te

Amo



MASA

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O tudo capaz
é o mudo que
[faz.

Petro

01/01/09

Casa de Vinho (Em homenagem à cantora Amy Winehouse)

Ela racha o seu valor e cobre meus desejos
Ela é um estupor embebido em arpejos
Ela é longe um pastor e nós os seus mancebos

Um grito e dor à flor da pele
Tatuado o pudor à cor da pele
De dia ou de noite, tanto faz
Branco ou tinto, satisfaz

Em uma casa de vinho eu encontrei
Meu medo mais vizinho eu encontrei
O desespero de sozinho eu aspirei
De sozinho ser quando dela precisei

O reflexo do espelho me mostra medo
Uma força de pentelho que impõe respeito
Um carisma, um verso, uma voz, seu jeito

Vampira talvez fosse o termo certo
Para definir o doce desfecho esperto
Que deixa o público do lugar repleto

Cheio de som
Cheio de tom
Cheio do bom

Ela é o dom.

Petro

31/12/08

Baby

Cadê o elo de prata que nos conecta?

Rechaço a discórdia que nos estigmatiza

São 365 apartamentos, mas não fiz reserva

O ano novo tem cheiro de carro novo

Uma toalha engomada que não enxuga

Não quero apenas meu nome na filiação desta criança

Não quero nosso amor, baby, morando em baixo da ponte,

Sobrevivendo da sopa-caridade nas noites de quinta.

Fecho os olhos, tapo os ouvidos, calo-me:

Agora sou toda micos a buscar-te no etéreo.

01/01/2005

Anete Antunes

O Círculo

E no final do ciclo,
reaproximava-nos do início.
De fato,
as coisas assomavam-se familiares.
*
Regressar ...
*
Dar-se conta
era tudo o que restava.
As roupas que esquecemos estendidas no varal,
enquanto dávamos essas voltas de anos:
Cores outrora tão nítidas,
desfaziam-se como aquarelas na chuva.
E na tela rota de algodão,
o mar finalmente assumiria a sua condição de líquida instabilidade,
borrando de marés azuis
todos os nossos resquícios de sol.
Verdes quedamos.
Pastos de recordações.
*
Partir ...
*
Um destino incerto,
embora quase sempre vislumbre no horizonte
as luvas brancas daqueles que solenemente
permaneceram no cais.
*
Regressar ...
*
As botas cheias de lama,
deixei-as na porta de entrada.
E sigo desnudando-me casa adentro,
como se a purificação de minha alma dependesse necessariamente
da ausência de matéria,
um algo de invisibilidade:
Isenção divina.
*
Anete Antunes
2005