segunda-feira, 8 de dezembro de 2008



Guardei o cheiro da pele-gozo no lençol de meses e meses não dormia outra. E fosse outra já não seria. Tinha que ser “Ela” e não “Outra” que significa uma substuição ou reserva na escala do sentimento. Isso não faria. Ela ainda não houve em sua totalidade. Somente fragmentos daquela respingou no lençol. Esta sim, imortal, posto que ninguém a chama. A ardência é uma aderência sem endereço fixo. Em quem reside? Muitas preferem ser desejadas a amadas, sem saberem que se trata de uma coisa só, dependendo da ordem dos sentidos para não desordenar o espírito metafísico. A prova comprova milênios obscurecidos sob um véu que não vela, um tolo desejo de permanência. Hoje é dia implacável de lavanderia. A lavanda de nossos olores exprimidos no pano que deitamos será misturada ao sabão barato que antes foi assepsia de ratos e-laborados. O cheiro não se perde, mas seguinte alquimia o deixará tão longe da memória. Dois em mim deflagram: um apela que não se faça tamanho crime. Detenham-no, o cheiro da mulher em mim que desejo. Sim, a mulher em mim que fui tão bem. A combinação de fruição diversa e uníssona – o nirvana. Meu outro, julgando ser mais prático, ordena: leve e lave bem até que não reste resquício. E prático que é, sabe bem que por ora mais exala o perfume de suas madrugadas de ânsia. Uma morte com data marcada para nascer. O perfume da Outra é o elixir Dela. Tônico que tomo porque quero mais dessa parada de seguir andando. Estou quase pronto. Não hesite em se inquilinar, nova e, de preferência, antiga que se chega sem termos, nem recatos. O lençol que ponho é vermelho com estampas de espanto. Um centímetro de cetim para aguçar o apelo da pele. Seja-me suave a que vem, mas que não atrase combustão, con-fundindo-me sagradamente com o profano encontro da nudez com o artifício. Não ouse fingir espamos de cinemas decadentes. Mas decaia nos orgasmos dos amantes de cinemas inenarráveis - o amor empresta a coragem de não ser limpo. Hoje é dia de lanvanderia. O que queremos alvejar? (Aluísio Martins)

3 comentários:

Lia disse...

Você mesmo. A verdade dos seus sentimentos em encontro a verdade dos da sua parceira.rsrs...Falo assim, prá ficar menos intrometida, afinal nunca se sabe se o escritor está falando na primeira pessoa de fato. Queremos almejar... A paz? A felicidade que está em assumir sem medo os acertos e os erros. Re- começando ou não. E o amor , o verdadeiro amor é sempre limpo. Não importa falsas ilusões provenientes do medo.
Adorei o texto, Maninho.Prá variar.
Desculpa os "foras"...
Beijoo

Cadinho RoCo disse...

Dia de limpeza é implacável.
Cadinho RoCo

Necka Ayala = N.A. disse...

Queremos alvejar o alvo certo. Aquele sem o qual nada descansa em nós.