sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Loira-burra


Alimenta-se de pequenas fatias prateadas e recheios ondulados e brilhantes, reflexivas. Engorda com dietéticas maldades. Rondou, com seus olhinhos semicerrados, o que circunvizinhava, e notou novidade inquilinando seu bairro. Desceu do carro uma garota, recatada, misteriosa, sentiu medo. Além da trigal cabeleira cascateando em laminas o par de olhos verdes, a boca miscigenada, carnuda e mulata, um tom ocre enviava sinais de sol e sal. Olhos de boa alma, gênio calmo. Morena logo convocou os habitantes para travar estratégias e tratou de encenar, cinicamente, sorrisos e rebolados. Perfilou Jonas, Marquinhos e Duda exigindo posturas e juras de amor em público. Beijos na boca, irrefutáveis. Pronto, essa loirinha metida a besta já deve saber quem manda por aqui. Ai dela se ousar se meter comigo. As amigas bajulavam e diziam-lhe que não haveria ninguém mais linda que ela e, aos poucos, sua ira foi dando lugar à gargalhada escandalosa, assustadora. Recepcionaram a menina em uníssono: loira-burra, loira-burra, loira-burra. A morena nunca perdia o rebolado, ao contrário, dominava-o excelentemente, acentuava-o quando rivais ou pretendentes por perto. Ainda que não pretendessem de fato, mero detalhe, todos a desejavam. Inclusive o Tio Alberto, solteirão convicto, irmão de sua mãe, quando lhe visitava, a seduzia. Tio olha os meus peitinhos, pega na minha bundinha, já sei beijar de língua, quer? Este bem que avisou a mana da formação da pequena. Não lhe deu ouvidos. Isso é coisa da sua cabeça, imagina, criança não tem maldade. Agora, evitava visitar-lhe. Cumpria o estritamente necessário, natal, aniversários, etc. Loira-burra, barrada ao convívio, entretinha-se com livros. (Aluísio Martins)

Um comentário:

C. A. Ribeiro Neto disse...

Cara, parabéns, é difícil hoje em dia, achar uma boa descrição. Acho que descreveste na medida certa. Nem muito, para ficar chato, nem pouco, para ficar incompleto.

Preciso saber se existe alguma regra por aqui. Tem?