sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Loira-burra


Alimenta-se de pequenas fatias prateadas e recheios ondulados e brilhantes, reflexivas. Engorda com dietéticas maldades. Rondou, com seus olhinhos semicerrados, o que circunvizinhava, e notou novidade inquilinando seu bairro. Desceu do carro uma garota, recatada, misteriosa, sentiu medo. Além da trigal cabeleira cascateando em laminas o par de olhos verdes, a boca miscigenada, carnuda e mulata, um tom ocre enviava sinais de sol e sal. Olhos de boa alma, gênio calmo. Morena logo convocou os habitantes para travar estratégias e tratou de encenar, cinicamente, sorrisos e rebolados. Perfilou Jonas, Marquinhos e Duda exigindo posturas e juras de amor em público. Beijos na boca, irrefutáveis. Pronto, essa loirinha metida a besta já deve saber quem manda por aqui. Ai dela se ousar se meter comigo. As amigas bajulavam e diziam-lhe que não haveria ninguém mais linda que ela e, aos poucos, sua ira foi dando lugar à gargalhada escandalosa, assustadora. Recepcionaram a menina em uníssono: loira-burra, loira-burra, loira-burra. A morena nunca perdia o rebolado, ao contrário, dominava-o excelentemente, acentuava-o quando rivais ou pretendentes por perto. Ainda que não pretendessem de fato, mero detalhe, todos a desejavam. Inclusive o Tio Alberto, solteirão convicto, irmão de sua mãe, quando lhe visitava, a seduzia. Tio olha os meus peitinhos, pega na minha bundinha, já sei beijar de língua, quer? Este bem que avisou a mana da formação da pequena. Não lhe deu ouvidos. Isso é coisa da sua cabeça, imagina, criança não tem maldade. Agora, evitava visitar-lhe. Cumpria o estritamente necessário, natal, aniversários, etc. Loira-burra, barrada ao convívio, entretinha-se com livros. (Aluísio Martins)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

????

Perguntas sem respostas

Cadê você?
De todo mundo
Em todo o mundo
Atrás da porta
Em toda porta
Por toda parte
Em toda arte
Sob a luz
Debaixo das sombras
Embaixo da unha
Os restos da noite
Dentro da boca
As sobras da vida
Que não tem mais vida
Por quê você?

MASA 19/5/8

PALHAS DO COQUEIRO

SUOR
QUE ESCORRE
FAZENDO CARINHO
QUE PERCORRE
ALHEIOS CAMINHOS
NO GOZO
NO FOGO
DE MANSINHO...

MASA.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Reu do Rio

Assumi que sou um navegante dos ribeiriços em acodir a si
riscos e desatinos; a primeiriços de que torna-me no que vi.
Suspenso por entre um matagal alto, esqueço do que falo e salto para
triste olhar dispenso.
Ao que perdi meu fio da visão, vejo o que vi ao longe, numa enevoada
casa de monge atravessar os que dito um pedi.
à outra margem, soçobrando peixes, desses que deixes por ti levarem
livre na estiagem.
Oi para o que passa, com o rio embassa, eriça e sente formigar da
divisa que chega ao encontrar com o oceano quente.
Tudo o que vejo é escaldar a verdadeira chegada do alvorecer na certa
esteira parecer, aeon e pincel e ensejo.
Para o rio atravessar, conta-se quantas são as tantas mãos as quais
remam e se despedem mais que se perdem no desaguão.
E, tudo isso é infinito, Deus que os pôs à nossa vista, cousa antiga
e tão bonito.
Tudo, então que é, se é para o rio, uma mulher -- a chamo ré. Mas como
sou homem, meu abdome é só o cio para parir um rio do que ter fé.
Sou réu do rio, e não tardio a descobrir o que ele é.

Petro

Fortaleza, 11/09/08

domingo, 28 de setembro de 2008

NOITE LONGA


A SOLIDÃO É COMPANHEIRA

BATE NO OMBRO

AFAGA A BARBA

ENCHE O COPO

(COM O MESMO ARDOR QUE O ESVAZIA)


A SOLIDÃO É COMPANHIA

DORME AO LADO

VIVE DENTRO

MORRE LONGE


MASA - 24/9/8

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O que eu seria se não eu não fosse eu mesmo?

Eu provavelmente quase nada faria. Não doeria em ninguém, de preferência. Mas também não me candidataria a ser mártir de causas alheias. Teria mais defeitos, com certeza. Porque ousaria mais e mais e mais. Outra coisa que faria, seria destruir todos os relógios do mundo e todos os calendários também. Compromissos só agendaria para a próxima vida (se houvesse). Caso não fosse possível a extinção de tais contagens, faria, por decreto, todos os dias terem autonomia de se instaurarem de acordo com suas vontades. Por exemplo, a segunda-feira só despertaria num outro dia, provavelmente com duas ou mais horas de preguiça - palavra que alguns insistem em chamar de atraso. Mandaria de volta para o reino maldito da coca-cola, o seu mascote, o Papai Noel. Se fosse mamãe, ainda vá lá... E que mesmo assim fosse, que não se fizesse das renas trabalhadoras braçais. Isso não. Até porque, as mulheres bem sabem voar - com vassouras e outros instrumentos mágicos. O cumprimento oficial e solene seria beijinho de esquimó e de borboleta. Que coisa linda, presidentes de nações esfregando seus narizinhos e se fazendo cosquinha com seus olhinhos. Seria uma boa medida para medir as suas mentiras (narizes), não? Então, estou vendo mesmo é que eu seria, acho, que um ditador. Mas um ditador que iria obrigar todo mundo a ser anarquista. Só se podia ser fiel a si mesmo. Ou seja, todos teriam, sob pena de vida, que ser muito felizes. E você? O que você seria? (Aluísio Martins)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A CONDIÇÃO HUMANA - André Malraux

Pag. 280:
“Sou atirado para fora do tempo”; o filho era a submissão ao tempo, ao fluir das coisas; com certeza, no fundo, ...era esperança como era angústia, esperança de nada, espera, e fora preciso que o seu amor tivesse sido esmagado para que tal descobrisse. E, no entanto! Tudo quanto o destruía encontrava nele um acolhimento ávido. “há algo de belo em estar morto”, pensou. Sentia tremer nele o sofrimento que vem dos seres ou das coisas, mas o que vem do próprio homem e a que a vida se esforça por no arrancar; podia escapar-lhe, mas só deixando de pensar nele; e nele mergulhava cada vez mais, como se essa contemplação aterrada fosse a única voz que a morte pudesse ouvir, como se o sofrimento de ser homem, de que se impregnava até o fundo do coração, fosse a única oração que o corpo do filho morto pudesse ouvir.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

OLHA A ELEIÇÃO AÍ, MINHA GENTE!!!!!!

Pai, tenho um trabalho para a escola! Posso te fazer uma pergunta?
- Claro, meu filho, qual é a pergunta?
- O que é política, pai?
- Bem, política envolve: Povo; Governo; Poder econômico; Classe trabalhadora; Futuro do país.
- Não entendi. Dá para explicar?
- Bem, vou usar a nossa casa como exemplo: Sou eu quem traz dinheiro para casa, então eu sou o poder econômico. Sua mãe administra, gasta o dinheiro, então ela é o governo. Como nós cuidamos das suas necessidades, você é o povo. Seu irmãozinho é o futuro do país e a Zefinha, babá dele, é a classe trabalhadora. Entendeu, filho?
- Mais ou menos, pai. Vou pensar.
Naquela noite, acordado pelo choro do irmãozinho, o menino, foi ver o que havia de errado. Descobriu que o irmãozinho tinha sujado a fralda e estava todo emporcalhado. Foi ao quarto dos pais e viu que sua mãe estava num sono muito profundo. Foi ao quarto da babá e viu, através da fechadura, o pai na cama com ela. Como os dois nem perceberam o menino na porta, ele voltou para o quarto e dormiu. Na manhã seguinte, na hora do café, ele falou para o pai:
- Pai, agora acho que entendi o que é política.
- Ótimo filho! Então me explica com suas palavras.
- Bom, pai, acho que é assim: Enquanto o poder econômico fode a classe trabalhadora, o governo dorme profundamente. o povo é totalmente ignorado e o futuro do país fica na merda!!!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

KOURNIKOVA


LI ANNA

E que letras

contornos incríveis,

com seu estilo clássico

LI ANNA

que conjunto de palavras

que sonetos

que sonorização na minha cabeça insana

LI ANNA

que fim!


MASA

domingo, 31 de agosto de 2008

amar, brigar, escrever - foder

Há somente três coisas que sei fazer com êxito: Amar que é, em suma, foder de certa forma; brigar que pode ser também uma outra forma de foder; e escrever que é foder de toda forma.
Quer dizer, bem ou mal, só sei foder.
(aluisiomartins)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

CINEMA EM CASA

SACO!!!!
Ontem fui me divertir...pelo menos achei que seria, em tempo integral!
Mas o quê?!!
Um dos melhores e mais gostoso filme do circuitão nacional "NOME PRÓPRIO" do Murilo Salles.
E quem mais? Uma sala cheia de comentaritas e narradores. me senti vendo o filme como se fosse um "brasileirão" com direito a Galvão Bueno, Renato Marsiglia e Falcão, juntos, falando ao mesmo tempo.
Como falta educação em nossas salas de cinema! mas, também, querer o quê?
Falta na sala de estar, de jantar, no quarto, na cozinha, na escola...por que o cinema seria exceção?????

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

FLORES E FOLHAS


cada parte sua que desliza sob minha mão

É uma pétala do que você representa no meu jardim

Suas folhas, que passeiam no meu corpo

Trazem o aroma infindável de nossos beijos.

E sua flor, que molha quando toca meus lábios,

Exprime o pulso que explode dentro do meu desejo.

Assim, você: flor, eu: jardim,

Continuamos brilhando sob a lua dos suspiros

Dos eternos namorados apaixonados...

AQUIRY


Céu negro das nuvens

Que vêm banhar

O verde cheiro de

Amor à terra.

Este chão duro

Onde piso a

Trilha aberta

Pelo suor da vontade

De chegar lá.

Longe.

Não na distância

Mas no fomento dos desejos.


É agosto. Tempo sem cura nem alívio. Estamos à gosto de delírio.
Eu me cobriria de silêncio se ousasse apenas um único questionamento: o que ainda não foi dito?
É por estupida surdez que ainda me insisto.
É por estoica mudez que ainda me grito.
Não conto até dez e cego e inconscientemente me repito.
Acontece que o ser humano – e talvez todo ser animado – só consiga o entendimento, a liberdade, quando se apropria dos verbos e quando expropria o pensamento. Pensamento é conjunto e portanto sempre coletivo. Para que se exista, há que se conjugar.
Desta maneira que palavras precisam e devem ser engolidas, digeridas e expurgadas depois adubando vidas, ainda que quando expelidas nunca mais serão as mesmas.
Claro que precisam ser expelidas. É aí que se adubam as existencias. Caso contrário, empedram. Engolir palavras na ponta da língua mumifca a vida. Causa alteração drástica de humores com rumores de desistência. Causam tumores a revelia dos maniqueísmos. Não importa a malignidade como coisa e fato. O fato é que essa carcomência apodrece o existir. A boca encerra, cheia de dentes fissurados, se trincando por não terem o que morder. A língua morre a míngua de excesso de escuros.
A dúvida quando nos cala à força do medo pode ser medusa terrível. Porém, nem meia duzia de versos e prosas já é sublimação consistente.
Toda essa fisiologia não é simples como parece. Os três movimentos se desentendem com frequência. Disputam nas interdependências suas inteiras independências. Estão atados mas não por gosto. Prova é que expelimos muitas vêzes vazios. Gases inócuos que advêm do oco das sensações. Noutras mal provamos do recém-dito e, como fosse pimenta braba engolida a seco, cuspimos iras, incinerando toda a chance de entendimento. Após certo tempo é que, sanada a queimadura, realizamos a maturidade sem desditos. Ou seja, memorizamos os sabores que serão utencílios fundamentais e jamais serão esquecidos.
Nessa matéria, tudo que existe se consiste de peso e medidas extremas.
Note-se o elefante maduro que com suas toneladas quânticas, paradoxalmente, dá preferência as folhas e aos frutos. Quer dizer, sabe da necessidade do equilibrio no diálogo das diferenças.
Antes do meio termo, o homem andará em meio as incertezas. Terá que provar de tudo.
(aluisiomartins)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

O Escritor

Para não ser simplista
o mal de todo artista
o bem da humanidade
escrever com vontade

Para não cair no clichê
Para não perguntarem por quê?
É preciso ser
Escritor pra saber.

Na pauta, a pena
Na voz, o poema
Na vida, a cena
Em si, este lema

Cair em si
é para o escritor
como rir
ao sentir dor

Tão leve ao vento
estão as palavras
que ao desatento
são só palavras.

11/08/08

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A fala de quem não falha


desconheço o autor da obra*


Não escuta e já retruca. Assim é fala de quem não falha por covardias.

Ah, foi culpa do pingo que molhou fora do... Ih, deu tudo errado – vou pedir a Ele dias melhores.

Aja, mas não como a naja que se move iludida da flauta de mantras.

Aja com termo próprio.

O opróbrio é bom brio de quem ousa.

E bom brio tem bem mais que mil e uma utilidades.

(aluisiomartins)

terça-feira, 29 de julho de 2008

Despe-me!...


Foto: Aloisio Brito

Agora que o Calor se aproxima…

O corpo pede…

Despe-me!...


Boas Férias!

domingo, 27 de julho de 2008

666

CÃO DOS INFERNOS

DIACHO DO RIACHO

CAPIROTO SEU ESCROTO

BICHO FEIO, COISA RUIM

GRUDA NA CARNE

PULSA NA PELE

ADORNA MEU CORAÇÃO



Gente cara,

Sou mestre na arte de encompridar pavios. Decerto que guardo no sótão meus artifícios. Fogos? Preciso do que me arde.

Meu alimento é combustão. Meu querer é combustível. Os percalços? Incinero e gozo, qual imperador, a arquitetura chama nos palácios que não me cabem. Nenhum. Nada de palavras-grades que podem conter o incontível como um “eu te amo” dito pela covardia de se ser odiado.

Da matéria que prima pela arte (arte-manhã-alma-minha), verto meus derivados e causo vertigem pelo impalpável e irredutível impagável meu existir.

Palavras justapostas, justamente, ditas ou expelidas de outra forma outra, elucidam o mistério de vencimento improdutívo do vendendor vendendo vencedores natos dos nossos melhores (pro)dutos.

Oficilmente, grandiloquente levo alimento aos que têm fome e fermento aos que anseiam fama. Inchem, pobres condenados. Hei de explodí-los de tanto elogio.

Em cada cena, um anceno e outras mil mecenas despercebidas nos meios-fios deslavados da estética do bueiro que sugere mergulho sem volta.

Caso eu falasse fluente, e falo, diria que sou improvisado pelo que há de sobrevida. Pelo que ainda pode haver de sobra. Nunca abaixo disso.

Sim, sou dados aos vivos (portanto, belos) contextos.

Em todos os sentidos, sou um homem de palavras. Estas são retro escavadeiras que lavram terra nunca dantes visitadas, nem por isso inéditas. Apenas elas aram estradas para o transporte dos ensejos e semeiam desejos e vícios que teimam pela felicidade.

Sou tira-teima da prova dos mais que nove possíveis outros mais inteligíveis à mim, quem sabe.

Ninguém sabe. Nem mesmo este que, a esmo, pleiteia pulo sobre o muro de silêncio, de silício, de Berlim, de China, de bem aqui, dentro do peito.

Longuínquo, digo...
(aluisiomartins)

domingo, 20 de julho de 2008

Boa praça


Foto: Dra Aline Piol - Médica do Sertão

Por onde andam os poetas?

Em que breus moram os andaluzes cá do nordeste?

“bichos escrotos saiam dos esgotos”

Olvidamos os duelos de repentes.

De titans.

Duo elos de muitas candeias.

A dialética da fome surtada

[mais que comida ao organismo físico e tísico

Com a forma sucinta

Suscita apêndices, regurgitares, regozijares

Apendicites agudas da indigestão do umbigo

Em gestão consoante

A sugestão do Chef

[Que se prove

[Que se pague

Pelo importado

Cof, cof, cof

Nossa língua parece que engasgou no tempo

Perecemos quanto mais parecemos...
(aluisiomartins)

sábado, 19 de julho de 2008

adiVida


desconheço o autor da foto

Toda via é ida e volta
Todavia, nem toda via é via para se achar caminho

Em via de regra

A via mais curta encurta a vida
Quando havia outra via ainda viável

Ávida pelo viajante

que se via
no outro lado
da via
que se vinha

No viaduto enviezado

Aviário, apesar do peso
A via era de mão dupla
Quando nada mais havia

A via sacra sacrifica a vida, saca?

A veia esgota ao longo da jornada

Se alivia

A via láctea engarrafada na porta da casa
Com prazo de vida

Se alí via
A vida outra na morada da alma
Comprazo de vida

Onde a via em carne viva

Mais viva que a minha
Havia de ser
Minha via toda por toda vida minha

(aluisiomartins)

terça-feira, 15 de julho de 2008

Grão em grão


Foto de Celso Oliveira

Eu já os admirava pela polidez e pelo polimento. Embora gregários, uma autonomia sutil como deve ser a liberdade – sem alarde nem oca publicidade. Decerto que, à primeira vista, causam impressão de arrogância. Até mesmo blasé. Mas não passa de ilusória impressão. Poderiam, se quisessem. Porque vivem acima das nossas possibilidades. Porque vivem abaixo com nossas impossibilidades.

Possuem arguto senso estético. Pairam somente onde as inteligências fizeram (fazem?) história. Urbanos. Não por qualidade nata. Mas por excelência. O que dizer de suas observâncias? Postados em refinados parapeitos ou majestosas sacadas, assistem, fixamente, nossas incoerências quando cuspimos nas baixelas que nos servem manjares.

Para eles migalhas. Grão em grão de ignorâncias. Nenhuma honraria. A não ser por uma já esquecida relação com a paz – cada vez mais rara entre nós.

Ao contrário de tantos que primam pelo hediondo (lucram, inclusive), estes tem almas de artistas e um profundo respeito pela história.

Casarões, monumentos e praças são predileções para os passeios matinais ou vespertinos. Nada de modernidades capitais.

Fotogênicos que são, pousam para posteridade em praças Paris, inglesas e papais. Adornam os retratos daqueles que possuem pouca ou nenhuma memória.

Trabalham gratuitamente em prol da dignificação das virtudes. Apesar de levarem a vida no bico: cartas de amores distantes ou proibidos e trevos. De quatro folhas, que se diga. Nutrem, portanto, a beleza das coisas.

Nós, em estado quase vegetativo, damos milhos aos pombos.
(aluisiomartins)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

PÁGINAS SEM FIM

Páginas Amarelas

Nas páginas amarelas tem tudo que você não procura, não precisa, não quer saber.
Tem amarelo demais, preto de menos, nenhum branco, azul aqui e acolá, verde...nem pensar.
Nas páginas amarelas, de tudo um pouco, do muito, nada. Ordem analfabética das coisas desordenadas, sobrepondo-se como vespas (amarelas?) ordenadas e alfabetizadas.
Sobram números de páginas soltas na vã procura, códigos, telefones ocupados ou desculpe, é engano.
E suas digitais nas orelhas, como o livro de leitura chata do milionário operário presidente bóia-fria analfabeto imaculado e nunca, nunca, enquadrado.

MASA
8/7/8

domingo, 13 de julho de 2008

Virtualismos (reprise, mas inédita - tudo flui)


Desconheço o auto da bela foto


Acabaram com as caixas de correio. Conspiram contra as cartas. Sentimentos eternos para destinos estáticos que, sob vigilância feroz e angustiada, aguardam boquiabertos o seu mundo mudar.

Elas, as cartas, quando chegam, arrancam lagrimas, gritos e risos. Ouve-se músicas antigas. De fossa. De bossa. Acompanhadas por um pileque, atrasando a fome e acelerando o amanhã de manhã, que nunca chega.

Elas, as cartas, quando saem, temperam a pele com o sal que vem do mar e cozinham a pressa em banho-maria, com fogo brando que derrete, lentamente, a esperança do reencontro, e uma brisa seca o suor derramado no apelo efêmero.

Hoje, por teclas insones, se enviam palavras mudas aos endereços fúteis que, sem culpa, nem pudor, acumulam em suas lixeiras o dialeto da esquiva, dos que desconhecem as esquinas da vida, cheias de bares e brilho. Onde, pais e filhos procuram, furtivamente, o paraíso prometido, tentando fugir da nova poltrona, da velha matrona que espera, com olhos arregalados, seus pobres coitados retornarem cansados e vazios para lhes aquecer os pratos e esfriar-lhes o pranto. E, durante seus roncos, se sonha meretriz do ídolo das oito.

Acabaram com as caixas de correio.

Acabaram, severamente, com Chico e Marieta, que se amavam pelas cartas que cruzavam o atlântico, os rios, as florestas e, sempre, não importando o destino, chegavam a Paris.

Acabaram com as filhas que se perdiam no velho mundo e usavam, como desculpas, as cartas - é tudo culpa do correio mamãe. Na carta perdida está minha vida, escrita, tintin-por-tintin. Já vou me despedindo, tenho aula de artes cênicas. E, cinicamente, choravam de rir.

Acabaram com as caixas de correio.

Acabaram enfim, com a saudade que, na distância, fazia o amor ser visto mais de perto e mais bonito.

(aluisiomartins)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Urbe


Vejo um bando de gente-mosca transitando lixos urbanos. O caos inerente à alma de quem se alimenta de réstias. Mas há uma harmonia, ainda que sutil. Lá se vão, de ilha em ilha, de prato em prato. Rápidas e precisas. Sem abalroamentos e contusões mais graves. Estacionam somente na hora de alçar de vôo para o outro lado. Esperam a passagem dos monstros ensandecidos que seguem suas preferenciais. Elefantes histéricos e rinocerontes deslumbrados. Isso tudo compreendo. Exceto suas músicas estereotipadas. (aluisiomartins)

o apreço da arte




Decretada a greve das claquetes
O descanso das interjeições e grunhidos premeditados

Desço o palco travestido de mentiras
[e muitos dramas

Desafio o estúpido sorriso
congelado na cara do expectador
que anseia a queda

A arte
[caríssima
vive nos poros
dos lixos esquecidos
dos becos e sinistros
dos leitos

Terminais das estações sem termo
[sem teto

Nas latrinas magras dos botequins
que revelam os hábitos e restos
[miseras vidas

Funestos adubarão a terra seca
Bem mais e melhor que suas sucatas inúteis

Nos charmosos recantos
choram as academias
[desentendem a paisagem
do bizarro aquário onde se diz:
Não dê comida aos macacos.
(aluisiomartins)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ingmar Bergman

Estou re-lendo Vida de Marionetes de Ingmar Bergman. Livro-roteiro dando continuidade de vida ao casal de Cenas de um Casamento. A dor de se viver a dois. Um pacto de solidão e ódio disfarçado em silencio.

Entenda-se por esse ódio algo mais além e profundo que raiva ou qualquer emoção rompante. Nada disso. Quase tão forte quanto o desprezo. Daí um amor profano. Quem não sentiu ódio de Deus por tanta indiferença, por vezes? Todos podemos matar? Inclusive e principalmente a quem mais amamos. Basta plantar a semente da imagem crime-castigo e, brevemente, nasce um plano incoercível, portanto, vital. À somente um, que se diga. Dado que é plano de morte do outro. É como queima de arquivo que tanto acontece por aí. Conhece meus segredos e corro mui provável risco de infâmia.

Antes escolher a viuvez que soa tão digna e inerte de máculas que o eterno retorno do não. Desde criança implantado na ex-futura coragem de ser.

Bergman não se conformou em deixar a velhice se empanturrar de dias inóspitos. Foi providencial. Bergman foi Deus. Como somos todos. Genitores de inúmeros destinos. (aluisiomartins)

Mãos de fado - aluisiomartins

Desde em tenra idade já me sabia um nostálgico incurável. E pior: sem encontros concretos, do tipo que nos chegam indiscutíveis e não nos chagam indeléveis. É óbvio que, de certa forma, para mais ou para menos, é a assim que corre o rio do viver humano, em geral. Mas meu caso é mais crônico – fui embevecido em tonéis e mais tonéis de utopias e poesias. O lirismo me persegue desde então. Tanto mais no ritmo solene, austero, condolente, até. É bem possível que antes, em outras encarnações, eu tenha sido um daqueles que sonhou, sonhou, sonhou e se afogou em lìquidos de sentimentos.

Hoje, sou um praieiro que evita o afogamento temido, molhando levemente os pés n’água. Claro, existe ainda o risco iminente de Tsunami me atingir em cheio. Mesmo vivendo nestas bandas secas. Porém isso é coisa pouca, miúda mesmo, para quem já vive sob os caprichos da lua.

O negócio é que quando escuto, seja uma voz interior, seja um canto místico acompanhado de um violão, fico completamente sem rumo. Desnordesteado. Dou-me o direito ao neologismo. Não há o desnorteado? Ora mais... Bem, nessas horas as glândulas responsáveis pela produção de sede e lágrimas começam a trabalhar em ritmo frenético. Fico mareado e bamboleio atrás de um molejo ou uma cadeira que se faça de colo ao filho perdido. Daí em diante meu destino está traçado: mais uma noite nos braços da eterna jovem e sedutora madrugada. Essa moça que sempre se renova, pois dorme, invariavelmente, logo que o sol dá vistas de que está surgindo e só acorda quando seus amantes já lhe cantam, mais em versos que em prosas, para que nunca mais os deixem sozinhos, sem amor.

Não se trata da solidão física, percebam. Nunca se está sozinho quando se tem amor para dar. Encontrar o objeto deste amor é uma outra estória. Porque para nós, nostálgicos, ele (o amor) nunca se encerra, nunca se sacia e nunca mesmo se suicida. Senão não seria nostalgia e sim assassinato ao bem maior que é a vida que, para seres como nós, é um detalhe muito relevante para que possamos gozar de nossa natureza rara.

A alma é maior que a casa que nos carrega – o sentimento de aperto é inevitável. O mundo é bom! Nós sabemos disso melhor que ninguém. Tanto que a nossa medida maior é a intensidade e não o tempo. E mesmo quando ruins tais sentimentos, ainda assim é maravilhoso sentirmo-nos, como diria? Nostálgicos, isso. (aluisiomartins)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Relação passada à limpo




Dove, que fora sempre muito polido, agora, espumava-se de raiva.

Nívea lhe dizia: mesmo que eu perca minha reputação, você não tardará em lamber meu corpo. Não fizeste economias em me prometer que contigo eu seria uma rosa perfumada. Vai ter que afundar comigo. Nívea vociferava, enquanto enchia a banheira.

Dove: terei culpa se te iludiram? Tua pele, por acaso, enruga por minha causa? Nunca falei que sanaria os acidentes de tua vida e cobriria tuas lacunas, tão evidentes. Não me quer? Jogue-me no lixo.

Nívea: você é igual a todos: um covarde! Já fala em me abandonar? Sei bem qual o teu plano: quer me ver na lama para que, em seguida, eu recorra aos teus serviços. Você fede. Suja-me! E pensar que eu me abri inteira...

Dove: e você, puritana? O que faz por mim? Só me critica...

Nívea: não fosse por mim você morreria largado num canto qualquer. Vencido! Já nasci cara. Não preciso me promover! Dou-me o devido valor. Meu erro foi dar ouvidos a minha vizinha, Vinólia, que falou que tu estava dis-pu-ta-dís-si-mo. Você não vale o que pesa. Morra, desgraçado!

E Nívea afogou-o, sem piedade. De Dove só se ouviu interjeições ininteligíveis - glup...

(aluisio martins)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

amor errante



Indepentemente de precipícios ou profundezas serei errante.

Amar é uma estrada sem retornos.

Há que alimentar-se de tudo, até que se descubra o que nutre e o que mata.

Não foi assim que muitos alimentos foram descobertos? Como terá sido a descoberta da mandioca braba como alimento?

Foram necessários sete dias de cozimento em fogo alto para que se comesse dessa iguaria sem o fim instantâneo.

No primeiro dia, um infeliz deu-lhe uma mordida e batata: ta lá um corpo estendido no chão. No segundo, alguém pensou em ferver e ferveu. Quem se arrisca? A curiosidade mata e matou – mais um. Isso, sucessivamente, até o sétimo dia – e Ele já podia descansar. Nenhuma alma penada, desde então, foi para além (ou aquém) por ter ingerido a mandioca que não era mais braba assim.

Todos mataram o que estava lhes matando - a fome. (aluisiomartins)